A cena se repete todo ano com a solenidade de missa cantada. A KLA, gigante americana de metrologia e inspeção de semicondutores, senta na conferência do Goldman Sachs, abre o powerpoint, e um coro de analistas em terno cinza balança a cabeça como se estivesse recebendo revelação divina. Perspectivas sólidas. Demanda robusta. Pipeline resiliente. Tradução do economês para o português: continuaremos a lucrar horrores enquanto o contribuinte americano paga a conta e o governo mantém os concorrentes chineses do lado de fora do muro.

Vamos ao que interessa, que é seguir o dinheiro. A KLA faz parte de um clube fechadíssimo, um oligopólio global de equipamentos de semicondutores onde meia dúzia de empresas, ASML, Applied Materials, Lam Research, Tokyo Electron e a própria KLA, controlam praticamente tudo que se produz em silício no planeta. Não é competição de mercado livre, é feudo tecnológico. E esse feudo foi generosamente irrigado nos últimos três anos por algo chamado Chips Act, aquela obra-prima do intervencionismo americano que despejou cinquenta e dois bilhões de dólares de dinheiro alheio no colo de quem já era rico. A KLA não construiu esse fosso sozinha. O governo construiu para ela.

E aqui entra a parte que os analistas do Goldman fingem não enxergar. Toda essa "solidez" das perspectivas de crescimento depende de duas variáveis que não têm nada a ver com engenharia ou com talento empresarial. Uma é a manutenção do bloqueio às exportações para a China, decreto executivo travestido de segurança nacional que, na prática, garante à KLA um mercado cativo nas fabs americanas, taiwanesas, coreanas e japonesas. A outra é o fluxo contínuo de subsídio federal para a TSMC de Phoenix, para a Samsung do Texas, para a Intel do Arizona, todos clientes obrigatórios da KLA. Retire o subsídio, retire o embargo, e veja quanto sobra da margem operacional de quarenta por cento.

Ninguém em Wall Street pergunta o óbvio, porque perguntar o óbvio quebra o encanto. O que se vê é a ação subindo, o dividendo pingando, o CEO sorrindo. O que não se vê é o americano médio pagando imposto para financiar fab que vai produzir chip que vai ser vendido pela metade do preço de mercado para empresa que já tinha dinheiro para comprar sem ajuda. Isso não é capitalismo. Isso é o velho arranjo mercantilista rebatizado com sigla nova, aquela dança antiga entre burocrata e executivo onde os dois saem sorrindo e o pagador de imposto sai com a carteira mais leve.

A ironia mais fina é que o argumento para tudo isso é sempre o mesmo, precisamos competir com a China, precisamos segurança nacional, precisamos autonomia estratégica. Discurso idêntico ao que a França usava no século dezessete para justificar suas manufaturas reais, e olha no que deu. Toda vez que o Estado decide escolher vencedores, ele os escolhe entre seus amigos, e depois transfere o custo para quem não estava na sala. A KLA não é vilã da história, é apenas a beneficiária mais bem-vestida de um esquema que dura enquanto o político do turno resolver que ainda vale o voto.

Enquanto isso, o investidor comum é convidado a comprar a narrativa de que o crescimento é orgânico, que a excelência técnica explica tudo, que o balanço reflete meritocracia pura. Compra se quiser, mas saiba que está apostando não na competência de uma empresa, e sim na permanência de um arranjo político. No dia em que a Casa Branca mudar de humor, ou em que a China conseguir dar o pulo tecnológico que já está pagando caro para dar, essa "solidez" evapora mais rápido do que promessa de campanha. Toda bolha inflada por decreto termina estourada por realidade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.