A Korn Ferry, gigante mundial da caça de executivos, aterrissou na conferência Communacopia + Technology 2026 do Goldman Sachs anunciando que o crescimento está se ampliando. Traduzindo o economês corporativo, a empresa vende para investidores institucionais a tese de que a demanda por seus serviços de recolocação, consultoria de liderança e reestruturação organizacional segue firme. O palco é o de sempre, o roteiro também: consultoria fala em expansão, banco de investimento aplaude, analista sell-side escreve relatório otimista, e o preço da ação sobe antes mesmo do café da manhã.
Olha, ninguém precisa ser especialista em mercado de trabalho para entender o que está acontecendo por baixo do verniz de PowerPoint. Uma consultoria de recrutamento executivo prospera quando há duas coisas simultâneas: capital abundante para pagar salários inflados e turbulência corporativa que gera demanda por trocar cadeiras no andar de cima. Ambas as condições são fabricadas em Washington e não em Los Angeles, onde fica a sede da Korn Ferry. Juro baixo por tempo demais criou a era das fusões, aquisições, spin-offs e reorganizações que engordam a fatura da consultoria enquanto o trabalhador comum vê o poder de compra derreter no supermercado.
Me diz uma coisa, quem paga o CEO de sete dígitos que a Korn Ferry ajuda a recrutar? No fim da linha, o consumidor. E quem financia a impressão de moeda que sustenta valuations esticados que permitem a empresa contratar esse CEO? O portador de dólar, de real, de qualquer papel que apanha na inflação enquanto o setor financeiro festeja liquidez. O que se vê é o crescimento anunciado no palco do Goldman. O que não se vê é a poupança destruída de milhões que financia, sem saber, a festa dos headhunters.
Existe algo particularmente cômico em uma conferência chamada Communacopia, cornucópia da comunicação, celebrar a expansão de uma consultoria cuja receita depende justamente da instabilidade que a política monetária frouxa produz. É a mesma lógica do vendedor de guarda-chuva rezando pela chuva. A Korn Ferry não cresce porque o mercado de trabalho está saudável; cresce porque o mercado de trabalho está sendo constantemente reorganizado por decisões macroeconômicas tomadas por burocratas que nunca contrataram ninguém na vida real.
E aqui entra o velho jogo do capitalismo de compadrio disfarçado de meritocracia global. Consultoria de topo, banco de investimento, fundo de private equity e conselhos de administração formam um circuito fechado de recolocação mútua. O mesmo executivo demitido de uma multinacional aparece dois trimestres depois no board de outra, indicado pela Korn Ferry, aprovado pelos mesmos acionistas institucionais que estavam na mesa anterior. A elite corporativa gira, os salários sobem, o consultor factura, e o funcionário do chão de fábrica descobre que seu emprego foi eliminado numa reestruturação recomendada pelo mesmo escritório que hoje aplaude o crescimento.
O recado que a Korn Ferry passa em Nova York é o recado que Wall Street quer ouvir num ciclo eleitoral americano barulhento e num mundo com bancos centrais coçando o gatilho da flexibilização. Enquanto durar a farra do dinheiro barato, a caça a executivos continua sendo negócio de ouro. Quando a maré virar, e ela sempre vira, veremos quem estava nadando pelado. Até lá, o teatro segue em cartaz, com ingresso pago por quem nem sabe que comprou.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.