O Kremlin abriu a semana com aquela resposta que só diplomata treinado consegue entregar sem rir: ainda não há decisão sobre uma possível cúpula entre Putin e Trump. Traduzindo do diplomatês para o português: estamos negociando os holofotes, o cenário, o ângulo da foto e quem vai pagar o champanhe. O anúncio de que não há anúncio virou notícia global, e redações do mundo inteiro correram para especular sobre datas, cidades e agendas, como se o destino de meio planeta dependesse de dois senhores decidirem em que salão vão apertar as mãos.

Convém olhar para o que não se vê nesse balé. Cada rodada dessas cúpulas mobiliza aparatos gigantescos de segurança, comitivas infladas, jatos oficiais, hotéis inteiros bloqueados, satélites redirecionados e uma legião de assessores que vive justamente de manter o ritual em movimento. O contribuinte americano, o russo, e por tabela o europeu que banca a OTAN, paga a conta enquanto a plateia é entretida com a novela do vai-não-vai. É a velha história: o gasto público tem beneficiários muito específicos, e nenhum deles atende pelo nome do cidadão comum.

Há também a questão de para que serve, afinal, esse tipo de encontro. A retórica oficial fala em paz na Ucrânia, estabilidade estratégica, canais de diálogo. Na prática, cúpulas entre chefes de superpotências raramente resolvem, elas dramatizam. O acordo, quando existe, foi costurado antes por burocratas anônimos que ninguém elegeu; a cúpula serve para vender o produto ao público doméstico dos dois lados, cada um apresentando o mesmo texto como vitória própria. É marketing político travestido de estadismo.

E note a coreografia do poder. Moscou solta a informação em conta-gotas, sabendo que cada gota vira manchete e cada manchete pressiona o outro lado a se posicionar. Washington responde na mesma moeda, dosando sinais, deixando vazar rumores, testando a temperatura do mercado, do Congresso e da opinião pública. Não é diplomacia, é pôquer com fichas alheias, e as fichas são vidas, orçamentos e liberdades de gente que nunca foi consultada. Quem controla a narrativa controla a realidade percebida, e ambos os lados sabem disso melhor do que qualquer manual de relações internacionais ensinaria.

O ponto que a imprensa bem-comportada nunca faz é o mais óbvio de todos: por que dois indivíduos, por mais poderosos que sejam, deveriam ter autoridade para decidir sobre guerra, paz, sanções e alinhamentos que afetam bilhões de pessoas? A resposta honesta é que não deveriam, mas o século vinte inteirinho se organizou para produzir exatamente essa concentração, e o vinte e um a herdou sem questionar. A cerca foi erguida por alguém, ninguém mais lembra por quê, e derrubá-la parece impensável justamente porque ninguém mais se pergunta se ela deveria estar ali.

Enquanto o Kremlin faz suspense e a Casa Branca finge que não está ansiosa, a bolsa oscila, o rublo respira, o dólar se ajeita, e cada movimento gera comissão para alguém. O teatro continua, o ingresso é cobrado à força via imposto e inflação, e o espectador não tem direito nem de reclamar do roteiro. Cúpula que não aconteceu já rendeu mais capital político do que muitas guerras vencidas, e é por isso que ela continuará não acontecendo até que seja lucrativo, para os dois lados, fazê-la acontecer.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.