O Kremlin veio a público confirmar que Washington negou visto ao vice-ministro das Relações Exteriores russo, e o episódio, que a imprensa engoliu como se fosse detalhe burocrático, é na verdade uma confissão diplomática de peso considerável. O anfitrião da suposta arena universal de diálogo, a mesma ONU que consome bilhões de dólares dos contribuintes americanos e europeus todos os anos, resolveu que o inimigo do momento não merece nem mesmo o direito de aparecer para discordar. Diplomacia, quer dizer, virou clube fechado onde o porteiro decide quem entra conforme o humor da Casa Branca.
Olha, o argumento de que se trata de resposta a sanções, guerra na Ucrânia ou qualquer outra justificativa da hora esbarra num probleminha inconveniente. O acordo de sede assinado em 1947 estabelece com todas as letras que os Estados Unidos, ao aceitarem sediar as Nações Unidas em Nova York, comprometeram-se a garantir trânsito livre a diplomatas de todos os países-membros. Esse acordo não é sugestão, é tratado internacional. Quando um governo pisoteia tratado quando lhe convém e invoca tratado quando lhe interessa, o que sobra do direito internacional é performance para as câmeras.
Me diz uma coisa, alguém acredita mesmo que o mundo ficaria pior se um vice-chanceler russo aparecesse em Manhattan para repetir o mesmo discurso que Moscou repete há três anos? A censura só faz sentido quando o censor teme o argumento do outro. Se a posição americana é tão sólida quanto proclamam nas coletivas, deveria querer o adversário no microfone, exposto, escrutinado, contestado. Vetar a presença é confissão de fraqueza travestida de força, é o gesto do professor autoritário que expulsa o aluno da sala em vez de responder à pergunta incômoda.
Siga o dinheiro, como sempre. A ONU custa aos americanos cerca de vinte e dois por cento do orçamento regular, mais fatias generosas das operações de paz e das agências especializadas. Ou seja, o contribuinte de Ohio paga para manter uma organização cujo suposto valor consiste exatamente em oferecer o único palco onde inimigos declarados podem se sentar na mesma mesa. Retirar esse palco esvazia o produto e mantém a fatura. É como pagar cinema para depois trancar a porta da sala de projeção; sobra o pipoqueiro cobrando ingresso de espetáculo que ninguém assiste.
O episódio também escancara uma verdade que os idealistas do multilateralismo detestam encarar. Organismos internacionais não flutuam acima da política, não são árbitros neutros, não representam humanidade abstrata alguma. São extensões das potências que os financiam, e quando essas potências decidem que a peça deve ser encenada apenas por atores aprovados, o roteiro deixa de ser diplomacia e vira propaganda. A ordem liberal internacional, tantas vezes celebrada nos discursos de posse, revela-se ordem liberal quando conveniente e ordem imperial quando necessário.
O mais irônico é que essa mesma máquina burocrática que hoje veta um diplomata russo será invocada amanhã como fórum indispensável para negociar cessar-fogo, tratados nucleares ou crises humanitárias. E aí Washington vai exigir que Moscou compareça, dialogue, coopere. A resposta previsível já está escrita nos manuais da guerra fria: quem fecha a porta na cara do outro não pode reclamar quando o outro para de bater. O visto negado hoje é o telefone desligado amanhã, e as consequências dessa infantilidade diplomática recaem, como sempre, sobre populações que jamais foram consultadas sobre nada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.