O Kremlin veio a público lamentar que o novo pacote de sanções dos Estados Unidos "não ajudará a restaurar as relações bilaterais". Traduzindo do diplomatês: a Rússia queria que Washington fingisse não ver o que faz, e Washington resolveu fingir que vê, porque fingir que vê rende manchete, rende voto e rende contrato. É o teatro de sempre, com dois atores cansados encenando para uma plateia que já pagou o ingresso três vezes e continua sem entender por que a peça nunca termina.

Convém lembrar o óbvio que a imprensa financeira insiste em esquecer: sanção econômica não é bisturi, é marreta. Ela quebra a perna do cidadão russo comum, encarece o pão do consumidor europeu, distorce o preço do petróleo do lado de cá do Atlântico e enriquece uma constelação previsível de intermediários, bancos de compliance, escritórios de advocacia especializados em "assessoria a regimes sob restrição" e as inevitáveis empresas de fachada que vão vender o mesmo produto por triangulação em Dubai, Istambul e Astana. O que se vê é o discurso moral do Departamento de Estado. O que não se vê é a fila de gente enriquecendo na sombra do decreto.

Siga o dinheiro e a coisa se ilumina. Cada rodada nova de sanção justifica orçamento novo para agências de fiscalização, cargo novo em Bruxelas, consultoria nova em Washington, seguro novo para armador grego, comissão nova para o banco suíço que vai processar a exceção humanitária, e assim por diante. É uma indústria. Uma indústria que precisa de conflito para existir, do mesmo modo que a burocracia sanitária precisa de doença permanente para justificar o próprio inchaço. Ninguém que vive de administrar sanção quer o dia em que a sanção acabe.

Há ainda o pequeno detalhe monetário que quase ninguém comenta em voz alta. Toda vez que se transforma o dólar em arma, se ensina ao resto do mundo a fabricar escudo. Não foi a China que inventou o yuan digital por vocação inovadora, foi a Casa Branca que empurrou meio planeta para procurar alternativa ao sistema de pagamentos que Washington usa como cassetete. É a velha lei da consequência não intencional: quem abusa da moeda de reserva acelera o próprio fim como moeda de reserva. E aí a conta chega em forma de inflação importada, para o americano médio que jamais votou em embargo a ninguém.

Quanto ao lamento do Kremlin, guardemos a piedade. Um regime que governa por decreto, que expropria oligarca conforme o humor do dia, que trata contrato como sugestão e fronteira como aspiração, não tem autoridade moral para reclamar de "obstáculos ao diálogo". Mas isso não redime o outro lado. Dois governos abusando do poder não somam liberdade, multiplicam servidão. E o cidadão, esse animal esquisito que produz, poupa, trabalha e paga imposto nas duas pontas do tabuleiro, continua sendo o único que sai perdendo em toda partida de xadrez geopolítico. Sempre foi assim, sempre será, enquanto a pergunta que ninguém faz continuar sem resposta: com que direito, exatamente, um governo decide o que o meu vizinho pode ou não pode comprar do vizinho do outro lado do mundo?

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.