Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, resolveu alimentar as especulações de que pode deixar o cargo antes do fim do mandato para entrar na corrida presidencial francesa de 2027. O detalhe delicioso é que ela não desmentiu, apenas sorriu para a plateia política, e o mercado europeu, aquele mesmo que jura de pés juntos que o BCE é uma instituição técnica, blindada, imune aos ventos partidários, engoliu a notícia como quem finge que não viu o rei atravessar a praça sem calças. Se o cargo mais poderoso da moeda comum pode ser abandonado no meio do caminho por ambição eleitoral, então nunca foi um cargo técnico. Sempre foi um trampolim.

Repare no arranjo. A senhora que hoje decide se milhões de europeus pagarão mais caro pelo pão amanhã, que aperta ou afrouxa juros conforme a conveniência do calendário político de Bruxelas, é a mesma que já foi ministra das Finanças da França, já presidiu o Fundo Monetário Internacional e agora considera voltar para casa e disputar o Eliseu. A trajetória inteira é política, do primeiro ao último degrau, mas nos vendem cada movimento como se fosse mérito técnico depurado. Quer dizer, o currículo grita o que a narrativa oficial se recusa a admitir: banco central moderno é um ministério camuflado, e o presidente do banco central é um político que ganhou o direito de imprimir dinheiro sem passar pelo constrangimento da urna.

E aqui vale seguir o rastro do que essa mulher fez enquanto ocupava a cadeira. Sob o comando dela, o BCE despejou trilhões de euros em compras de títulos, financiou indiretamente os desmandos fiscais de meia dúzia de governos europeus, atrasou a alta de juros quando a inflação já rugia nas prateleiras dos supermercados de Berlim e Lisboa, e depois correu atrás do prejuízo empobrecendo o assalariado que nunca pediu para participar do experimento. Cada uma dessas decisões teve vencedores nítidos, os governos endividados e os grandes bancos que carregavam papel podre, e perdedores dispersos, o aposentado espanhol, o pequeno poupador italiano, a dona de casa alemã. A conta chegou, como sempre chega, mas o nome dela não estava na fatura.

Olha, o pior nem é a possibilidade de Lagarde trocar Frankfurt por Paris. O pior é o que essa possibilidade revela sobre a natureza do dinheiro fiduciário administrado por comitê. Uma moeda séria não pode depender do humor eleitoral de uma francesa ambiciosa, nem da coragem de um alemão prudente, nem da paciência de um italiano cansado. Quando a moeda vira função da carreira pessoal de quem a governa, deixou de ser moeda e virou instrumento. E instrumento na mão de quem tem ambição política se chama alavanca. O euro nunca foi um projeto econômico, foi sempre um projeto federalista disfarçado de tecnicidade, e agora até o disfarce está caindo.

A candidatura Lagarde, se acontecer, terá um patrocinador silencioso que ninguém confessa: o próprio balanço do BCE, inflado por anos de compras questionáveis, cheio de títulos de países que jamais pagariam preço de mercado por eles. Uma presidente que sai do banco central direto para a política carrega no currículo os favores que distribuiu, e os beneficiários lembram. Não é golpe, não é escândalo, é o funcionamento normal de um sistema onde a linha entre a autoridade monetária e o palanque foi apagada há tanto tempo que a maioria dos comentaristas já nem se lembra que ela existiu. Me diz uma coisa: se o guardião da moeda pode virar candidato amanhã, quem estava guardando a moeda ontem?

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.