A Legal & General anunciou nesta semana a conclusão da primeira parcela de um programa de recompra de ações no valor de £600 milhões, e o comunicado veio embrulhado naquela linguagem asséptica que os departamentos de relações com investidores dominam como ninguém. Recompra, tranche, retorno ao acionista, otimização de capital. Palavras bonitas para descrever um fenômeno bem mais prosaico: uma gigante financeira sentada em cima de uma montanha de caixa que não consegue empregar produtivamente, e que decide então gastar essa fortuna comprando os próprios papéis para inflar artificialmente o lucro por ação. É contabilidade criativa vestida de terno de Savile Row.

Olha, quando uma empresa recompra ações em vez de investir em novos produtos, expandir operações, contratar gente ou pagar dividendos mais gordos, ela está te dizendo alguma coisa importante sem falar. Está dizendo que não vê oportunidades de crescimento que justifiquem o risco. Está admitindo, entre linhas, que o ambiente regulatório britânico, com Solvência II apertando de um lado e o Banco da Inglaterra distorcendo curva de juros do outro, não oferece horizonte em que valha a pena arriscar capital em coisas que gerem riqueza real. Sobra então o expediente financeiro puro, o loop autorreferente, a empresa se comprando de si mesma como quem come a própria cauda.

E aqui vale seguir a trilha do dinheiro, porque ela é reveladora. Quem ganha com a recompra? Os executivos com pacotes de remuneração atrelados a métricas de lucro por ação, que sobem mecanicamente quando o número de ações em circulação encolhe. Os grandes fundos institucionais que veem a cotação subir sem que nada de fundamental tenha mudado no negócio. Os analistas que reciclam a mesma narrativa de "disciplina de capital" em relatórios que ninguém lê até o fim. E quem paga? O capital que poderia estar financiando uma fábrica, uma pesquisa, um seguro mais barato para o aposentado inglês médio, e que em vez disso vira combustível de um exercício estético no balanço patrimonial.

O que não se vê nessa história é o mais eloquente. Não se vê o mercado de anuidades que poderia crescer se o capital fosse aplicado em novas linhas de produto. Não se vê a inovação em previdência privada que poderia atender uma classe média britânica esmagada entre inflação persistente e Estado obeso. Não se vê a expansão internacional que uma seguradora com esse porte poderia estar liderando em economias emergentes. Vê-se apenas o número redondo do comunicado, £600 milhões, e o aplauso ritual da imprensa especializada, sempre pronta a chamar de estratégia aquilo que é, no fundo, uma capitulação diante de um ambiente econômico que sufoca o empreendedorismo autêntico.

Me diz uma coisa, quando foi que "devolver capital ao acionista" virou sinônimo de gestão brilhante? Houve um tempo em que uma empresa se orgulhava de reinvestir, de crescer, de construir algo maior amanhã do que era ontem. Agora se orgulha de encolher com elegância. É o sintoma perfeito de uma economia financeirizada até a medula, onde o balanço patrimonial substituiu a linha de produção, onde a engenharia contábil substituiu a engenharia industrial, onde o CFO virou mais importante que o engenheiro-chefe. Isso não é capitalismo. Capitalismo real é o sujeito arriscando poupança para produzir algo que antes não existia. Isso aí é outra coisa, é uma coreografia financeira que consome capital sem gerar nada além de manchete.

A Legal & General fará mais tranches, o preço das ações provavelmente subirá no curto prazo, os bônus dos executivos serão pagos, e daqui a alguns trimestres alguém vai olhar para trás e perguntar por que a companhia perdeu terreno para concorrentes mais ousados. A resposta estará justamente nesse comunicado que hoje passa por notícia positiva. Empresa que não sabe mais crescer, se recompra. Economia que não sabe mais produzir, se financia. Civilização que não sabe mais criar, se contempla no espelho até quebrar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.