Oitocentos e setenta e cinco milhões de dólares. É o cheque que a Positron AI acaba de embolsar numa rodada que a Liberty Global fez questão de ajudar a costurar, junto com um enxame de fundos que descobriram, todos ao mesmo tempo, que precisam ter exposição ao próximo unicórnio de inteligência artificial. A empresa vende chips de inferência, promete eficiência energética superior à Nvidia e, como toda startup do gênero em 2026, ainda não provou coisa alguma em escala comercial relevante. Mas isso é detalhe. O que importa é a narrativa, e a narrativa está impecável.

Olha, o padrão é sempre o mesmo, e ele se repete há pelo menos três séculos com puntualidade de relógio suíço. Alguém descobre uma tecnologia genuinamente promissora, o capital detecta o cheiro, e em pouco tempo qualquer coisa com um verniz do tema recebe avaliação de dezenas de bilhões antes de faturar o primeiro dólar decente. Foi assim com as ferrovias no século dezenove, com o rádio nos anos vinte, com as pontocom no fim dos anos noventa. A tecnologia sobrevive, geralmente floresce, mas a maioria absoluta das empresas que a montaram na bolha vira pó. E o pó não pertence aos gestores dos fundos, pertence aos cotistas, aos fundos de pensão, ao aposentado que confiou seu dinheiro a alguém que jurou saber o que estava fazendo.

Me diz uma coisa, você acha que essa avalanche de capital para empresas de IA teria a mesma intensidade num mundo com taxas de juros reais? Num ambiente monetário são, onde o dinheiro custa dinheiro e cada dólar aplicado precisa render mais do que a alternativa segura, um cheque de quase um bilhão de dólares para uma empresa pré-receita seria escrutínio sério, não manchete comemorativa. Mas depois de mais de uma década de dinheiro artificialmente barato, do experimento monetário mais longo e imprudente da história moderna, o cérebro do mercado atrofiou a parte que calcula risco. Sobrou só a parte que persegue tese.

A Liberty Global, para quem não acompanha, é um conglomerado de telecomunicações que precisa desesperadamente convencer o mercado de que ainda é relevante numa era em que o valor migrou dos canos para o que corre dentro deles. Investir em Positron é comprar bilhete para a festa certa, aparecer na foto correta, sinalizar para os analistas que a empresa não é apenas uma coleção de fibra óptica encalhada. É estratégia de posicionamento tanto quanto aposta técnica, e talvez mais o primeiro do que o segundo. O interessante é que ninguém questiona. Quando o consenso é tão unânime, quando todo mundo aplaude na mesma direção, o observador atento deveria acender um alerta amarelo, não vermelho ainda, mas amarelo firme.

Isso não significa que a Positron seja fraude ou que a inteligência artificial seja miragem. Significa apenas que a distância entre a tecnologia real e a avaliação que o capital paga por ela está esticada como corda de violino em noite úmida. Alguma coisa vai arrebentar, e quando arrebentar, os mesmos jornais que hoje celebram a rodada vão descobrir, com ar de indignada surpresa, que havia excessos, que havia exuberância irracional, que ninguém poderia ter previsto. Poderiam sim. Basta olhar para o que não se vê no meio da euforia, o custo de oportunidade de um capital que poderia estar financiando produtividade real, e a fatura silenciosa que a política monetária das últimas duas décadas continua empurrando para frente.

No fim, o veredicto histórico é sempre o mesmo. A tecnologia útil sobrevive, as empresas superavaliadas quebram, os fundos absorvem prejuízo e o próximo ciclo começa com nomes novos e certeza renovada de que desta vez é diferente. Nunca é.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.