O anúncio é discreto, quase entediante para o leitor apressado. Um fundo imobiliário listado lá fora resolve distribuir 1,4475 pence por cota, comunica aos acionistas, define data de corte, paga. Fim da história. Só que a história começa exatamente aí, porque enquanto o investidor de Londres recebe seus centavinhos de libra com a regularidade de um relógio suíço, o investidor brasileiro está aqui torcendo para o próximo rendimento do FII local não vir com asterisco, nota de rodapé e aviso de que a vacância subiu, o inquilino atrasou e o gestor decidiu, por prudência, segurar o caixa mais um trimestre.
Existe uma diferença civilizacional escondida nessa notícia curta, e quem não enxerga é porque não quer. Um mercado onde o direito de propriedade é levado a sério produz dividendos previsíveis, contratos honrados e gestores que se comportam. Um mercado onde propriedade é concessão de burocrata produz o oposto, e o brasileiro médio já se acostumou tanto com o oposto que passou a chamar isso de normalidade. Não é normal. É a lenta pedagogia do país que aprendeu a viver sob o confisco disfarçado de política pública.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. O pence que o Living distribui hoje é resíduo de aluguel pago por famílias britânicas, contabilizado em libra, tributado uma vez, entregue ao cotista. O real que o FII tupiniquim tenta distribuir amanhã passou pelo imposto de renda da pessoa jurídica investidora do inquilino, pela CSLL, pelo PIS e pela COFINS embutidos no contrato, pela taxa de administração cheia de gordura, e ainda corre o risco de encontrar pelo caminho algum secretário de fazenda inspirado querendo tributar o que nunca foi tributado, porque a criatividade fiscal brasileira é a única indústria que nunca entra em recessão.
Há quem diga que comparar Londres com São Paulo é injusto, e realmente é, mas não pelos motivos que os defensores do modelo brasileiro imaginam. A injustiça está em fingir que a diferença é de sorte, de cultura, de PIB per capita, quando na verdade é de arquitetura institucional. Uma cota que rende pence em libra rende porque existe um edifício jurídico centenário protegendo cada tijolo, cada contrato, cada cláusula. Uma cota que rende real em terra brasilis rende apesar do edifício jurídico, não graças a ele. É a diferença entre nadar a favor da correnteza e nadar contra o rio inteiro, com a Receita Federal remando na direção oposta.
E aqui entra a lição que quase ninguém quer aprender. O dividendo pequeno, entediante, quase invisível, é a prova viva de que o mercado maduro não precisa de fogos de artifício. Ele precisa apenas que o Estado não atrapalhe, que o contrato seja contrato, que o gestor seja pego pelo colarinho quando mentir, que o cotista minoritário tenha os mesmos direitos do majoritário. Nada disso é revolucionário. Tudo isso foi conquistado ao longo de séculos de gente cansada de ser roubada. O Brasil ainda não decidiu se quer entrar nessa fila ou se prefere continuar inventando fundo imobiliário com gestão criativa, distribuição irregular e cotista tratado como acionista de segunda classe.
Enquanto isso, o pence pinga na conta de quem entendeu, faz alguns anos, que patriotismo não é sinônimo de fidelidade cega ao próprio inferno tributário. Diversificar geograficamente virou, no fim das contas, um ato quase moral. Não é fuga, é bom senso. Não é falta de fé no país, é excesso de memória sobre o que o país costuma fazer com quem confia demais nele. A cota da Living distribui centavos de libra e, com esses centavos, ensina uma verdade que nenhum ministro brasileiro tem coragem de admitir. Previsibilidade é o luxo dos povos livres, e é exatamente por isso que ela custa tão caro por aqui.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.