Sábado à noite, horário eleitoral, e o espectador é brindado com a cena mais antiga do teatro político brasileiro: o sujeito que passou anos assinando decretos, expandindo gastos, emitindo dívida e chutando a lata da responsabilidade fiscal para depois das eleições sobe ao palco para reclamar do preço do arroz. É como o incendiário que chega correndo ao local do crime segurando um balde furado e exige aplauso pelo esforço. A inflação, senhoras e senhores, não caiu do céu nem veio da Ucrânia nem do clima nem de qualquer entidade meteorológica conveniente. Ela tem endereço, CNPJ e assinatura no Diário Oficial.

Quando se fala em preço de alimento, a pergunta que ninguém no horário eleitoral quer responder é a única que interessa: quem imprimiu, quem gastou, quem endividou, quem tributou até o osso a cadeia produtiva que vai do produtor rural ao caixa do supermercado. O feijão não fica caro por maldade do feirante. Fica caro porque a moeda perde valor todo dia num processo silencioso de confisco, porque o combustível carrega meia dúzia de tributos empilhados, porque o caminhão que transporta a mercadoria paga pedágio, imposto, licença, taxa, contribuição e mais um punhado de siglas criadas para financiar a máquina que produz o próprio candidato. O consumidor paga três vezes: paga o produto, paga o imposto embutido e paga a propaganda que promete resolver o que ele mesmo criou.

O outro cavalheiro, aquele que agora descobre a segurança pública como bandeira, faz o número complementar. Fala em combate ao crime organizado com a naturalidade de quem esqueceu que crime organizado floresce exatamente onde o Estado se meteu a proibir, tabelar, monopolizar e regular tudo o que se move. Cada mercado empurrado para a ilegalidade é um presente de aniversário para a facção. Cada empresa sufocada por regulação vira território disponível para o paralelo. A guerra às drogas, esse eufemismo elegante para a guerra aos pobres da periferia, financiou milícias, corrompeu polícias e transformou favela em faroeste. Agora o mesmo aparato que criou o problema vem oferecer a solução, sempre mediante ampliação de orçamento, mais cargos, mais poder e menos liberdade para o cidadão comum.

Há uma lógica cristalina no espetáculo, e ela é sempre a mesma: o político cria o problema, cobra pelo diagnóstico, vende a solução e ainda debita a fatura na conta do pagador de impostos. Se fosse encanador, teria a licença cassada na primeira semana. Se fosse médico, responderia por má prática. Como é político, ganha tempo de televisão gratuito, financiado por fundo eleitoral bilionário que sai, adivinhe, do bolso do sujeito que está reclamando do preço do arroz. O ciclo é perfeito e perverso, uma engrenagem que só para quando alguém tem a coragem de apontar para o rei e constatar em voz alta que ele está nu.

A promessa de baixar o preço dos alimentos por decreto tem a mesma seriedade científica de proibir a chuva por portaria. Preço é sintoma, não causa. E enquanto o eleitor for tratado como criança que se contenta com a fantasia do papai bondoso que resolve tudo, o Brasil continuará essa república curiosa em que quem ateia o fogo é o mesmo que se candidata a bombeiro, quem cria a doença é o mesmo que vende o remédio, e quem confisca o salário é o mesmo que aparece na tela oferecendo migalhas do próprio dinheiro alheio como se fosse generosidade. Segurança e comida na mesa não vêm de comício. Vêm de propriedade respeitada, moeda honesta e Estado que caiba dentro do próprio orçamento. Tudo o mais é fumaça de horário nobre.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.