O fim de semana teve escala marcada, roteiro turístico e programa de auditório. O ocupante do Planalto desembarcou no Sul acompanhado de dois senadores que, em qualquer democracia adulta, teriam obrigação de fiscalizar o Executivo, e não de servir de claque em comício disfarçado de agenda institucional. Enquanto isso, dois governadores do Sudeste, ambos alojados na prateleira do centro impossível, faziam sua própria dancinha eleitoral pelo interior. É o Brasil de sempre: seis, oito, doze figuras se revezando na cadeira, todas jurando que desta vez é diferente, todas viajando com combustível pago por quem trabalha.

Observe a coreografia com o olhar de quem já viu esse balé mil vezes. Não há um único desses cavalheiros que tenha chegado até ali sem passar por dentro da máquina, sem lamber o carimbo, sem alimentar a fera que agora fingem querer domar. O discurso de renovação sai da boca dos mesmos rostos que enfeitam a política nacional há trinta, quarenta anos. Renovam-se as caravanas, jamais os passageiros. É como aquele conto do bufão que muda de fantasia entre um ato e outro, e o público, embevecido, aplaude achando que trocaram o elenco.

Siga a trilha do dinheiro e o encanto se desfaz. Cada quilômetro rodado nesses aviões, cada sanduíche servido nos jantares com prefeitos, cada segurança escalado para proteger candidato de si mesmo, tudo sai do bolso do sujeito que paga imposto sobre o pão, sobre a gasolina, sobre o próprio salário antes mesmo de recebê-lo. E os que se apresentam como alternativa ao ocupante do palácio? Governam estados que vivem de repasses federais, de renúncias fiscais compradas na canetada, de emendas parlamentares negociadas como quem barganha porco em feira do interior. Todos, sem exceção, prosperam à custa alheia. A disputa entre eles é apenas sobre quem vai administrar o balcão.

Existe um silogismo elementar que a imprensa palaciana se recusa a montar. Se todo candidato precisa do apoio de caciques regionais, e todo cacique regional só apoia quem promete manter o esquema que o sustenta, então nenhum candidato vitorioso pode desmontar o esquema que lhe deu a vitória. Ponto final. Não há mistério, não há teoria conspiratória, não há complexidade sofisticada. É aritmética de padeiro. O sujeito que sobe a rampa deve favores, e favor cobrado é orçamento comprometido antes mesmo da posse. Quem acredita que dessa vez o eleito trairá seus financiadores para servir ao povo anônimo tem a mesma inocência de quem espera fidelidade de gato faminto diante de sardinha aberta.

Repare também no vocabulário. Chamam de agenda o que é campanha, chamam de encontro institucional o que é comício, chamam de diálogo com a sociedade civil o que é negociação com empresário sedento por subsídio. A linguagem foi torturada até confessar qualquer coisa. E o eleitor, treinado por décadas de novela política, engole o pacote inteiro, ainda agradece, ainda posta foto sorrindo com o candidato de estimação, como torcedor que confunde clube de futebol com projeto civilizatório. A guerra cultural venceu antes da guerra eleitoral: convenceram o brasileiro de que escolher entre saqueadores é exercer liberdade.

A pergunta, portanto, volta ao começo, porque toda pergunta honesta é circular quando o assunto é poder. Quem paga essa turnê nacional de rostos velhos com discursos reciclados? O contribuinte. Quem recebe, em contratos, cargos, emendas, silêncios estratégicos e favores futuros? Exatamente os mesmos que aparecem sorrindo nas fotos do Sul e do Sudeste. O resto é ruído, é confete, é fumaça de palanque. A eleição já foi decidida no momento em que se aceitou que o Estado deve ter tamanho suficiente para valer essa disputa toda. Enquanto isso, o cidadão trabalha para bancar a peça em que ele mesmo não tem fala.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.