Lula subiu ao palanque e cravou a frase que virou manchete: disse a Trump que não se metesse na eleição brasileira, porque o país não é vira-lata nem republiqueta de banana. O bordão é bonito, cabe em camiseta, funciona no comício. O problema é que sai da boca do sujeito que fez carreira internacional pedindo bênção a ditadores, abraçando Maduro como irmão de sangue, mandando emissário beijar a mão dos aiatolás e assinando comunicado conjunto com o Partido Comunista Chinês sobre a soberania de Taiwan, ou seja, sobre como um país estrangeiro deve tratar outro país estrangeiro. Soberania alheia, no manual da casa, é detalhe. Só a nossa, quando ameaçada pelo americano errado, vira dogma sagrado.
Repare no timing. A indignação patriótica não apareceu quando o Itamaraty recebeu instruções de Havana sobre como votar na ONU, não apareceu quando o BNDES financiou obra de Odebrecht em Cuba com dinheiro que saiu do bolso do trabalhador paulista, não apareceu quando técnicos venezuelanos foram trazidos para operar programa social brasileiro. Apareceu agora, exatamente agora, porque Washington deixou de ser o cocho e virou o incômodo. Enquanto o americano assinava cheque para ONG amiga e engolia sanção comercial em silêncio, era parceiro estratégico. Passou a cobrar reciprocidade, virou imperialista. A régua muda conforme o freguês.
Quer dizer, a mesma turma que passou décadas explicando nas universidades que fronteira é conceito burguês, que Estado-nação é resquício colonial, que a solidariedade internacionalista dos povos supera qualquer bandeira, agora desenrola o pavilhão nacional e chora pela pátria ultrajada. É o velho truque: internacionalismo quando serve para dissolver a resistência interna, nacionalismo quando serve para calar a crítica externa. Não existe princípio, existe conveniência tática. E o eleitor médio, que não leu o roteiro, acha que está vendo patriotismo genuíno quando na verdade assiste a um número de circo bem ensaiado.
Enquanto o discurso ferve, o câmbio conta outra história. O real derrete, o risco Brasil sobe, o investidor estrangeiro que financia a farra fiscal começa a fazer as contas e a fila do aeroporto de Guarulhos anda para o lado errado. Nenhum comício sobre soberania paga a conta do arcabouço fiscal furado, nenhum aplauso de militante segura o rombo previdenciário, nenhuma bravata contra Trump baixa o preço do arroz. A economia real não assiste jornal nacional, ela lê balanço, e o balanço diz que o país está gastando dinheiro que não tem para comprar apoio que não fica.
O mais divertido é o vocabulário escolhido. Vira-lata e republiqueta de banana são exatamente os termos que descreveriam com precisão cirúrgica o comportamento do próprio governo quando o assunto é a China. Recebemos a comitiva de Pequim com honras que nem o rei da Inglaterra teria, entregamos setores estratégicos por migalha, aceitamos condições comerciais que nenhum país sério aceitaria, e ainda mandamos delegação agradecer. Vira-lata, no dicionário honesto, é o cachorro que abana o rabo para quem dá comida. Republiqueta é o lugar onde o chefe do executivo confunde política externa com vaidade pessoal e trata o Tesouro como caixa dois da campanha permanente.
No fim, o que resta é o retrato: um presidente que descobriu a bandeira nacional na véspera da eleição, que chama de imperialismo qualquer crítica vinda de fora e de democracia qualquer aplauso vindo de Caracas, que pede respeito à soberania alheia depois de passar a carreira inteira violando a própria. A plateia militante bate palma, a imprensa aliada reproduz o bordão, e a conta fica para o pagador de imposto de sempre. Soberania de verdade se demonstra na moeda forte, no orçamento equilibrado, na instituição respeitada. O resto é fantasia de carnaval fora de época.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.