A cena se repete em ritmo litúrgico. Uma companhia sobe ao palco de uma conferência de investidores, apresenta gráficos ascendentes, fala em sinergias, em pipeline de aquisições, em disciplina de capital, e a plateia de gestores anota diligentemente como se estivesse diante de uma revelação. A Madison Air fez exatamente isso na Morgan Stanley, e o roteiro seguiu o manual: crescimento orgânico, aquisição estratégica, alavancagem sob controle. Três palavras que, quando ditas juntas, deveriam acender uma luz vermelha em qualquer pessoa que já tenha visto esse filme antes. Porque a gente já viu, e o final quase nunca é o que o slide promete.
Olha, quando uma empresa combina apetite por aquisição com endividamento crescente num ambiente de juros artificialmente moldados pelos bancos centrais, ela não está sendo audaciosa, está apenas montando cavalgada em cima de uma onda que não fez. O crédito farto que financia esse tipo de expansão não brota da poupança real de gente que abriu mão de consumo hoje para investir amanhã. Brota da mesa de operações do banco central, do apetite institucional por rendimento a qualquer preço, e da ilusão coletiva de que a próxima recessão sempre vai ser adiada por mais um trimestre. É o boom sem lastro, e todo boom sem lastro termina do mesmo jeito.
Quer dizer, ninguém no palco jamais menciona a parte incômoda da equação. Fala-se em EBITDA ajustado, em múltiplos de aquisição, em accretion no primeiro ano, mas a pergunta que interessa fica flutuando sem dono: e se o custo do dinheiro subir mais um degrau, quem paga? A resposta, invariavelmente, é o acionista minoritário que comprou a tese na conferência, o funcionário que perde emprego quando a reestruturação vem, e o contribuinte que socorre o sistema quando o efeito dominó ameaça o "grande demais para quebrar". Os executivos que estruturaram a farra saem com bônus embolsados e paraquedas de ouro. Sempre saem.
Há uma diferença abissal entre uma empresa que cresce porque serve melhor o cliente, gera caixa, reinveste lucro genuíno e conquista mercado no braço, e uma empresa que cresce porque conseguiu emitir dívida a taxas convidativas para engolir concorrentes. A primeira representa capitalismo no seu sentido mais honesto, o de descoberta e serviço. A segunda é engenharia financeira travestida de estratégia industrial, e engenharia financeira, por mais elegante que pareça no PowerPoint, não cria valor, apenas o rearranja, cobrando pedágio de comissão no caminho.
E aqui vale seguir o dinheiro com atenção. Quem ganha nesse arranjo? O banco que estrutura a operação, o assessor que ganha fee por transação, o executivo com opções atreladas ao preço da ação no curto prazo, o fundo que carrega o papel até o próximo múltiplo. Quem perde? Todos os demais quando a maré vira. É um jogo em que os ganhos são privatizados enquanto o risco sistêmico, aquele que ninguém precifica na apresentação, é socializado silenciosamente. Chamam isso de mercado, mas mercado de verdade é aquele em que quem se arrisca paga a conta do próprio erro.
Me diz uma coisa, se alavancagem fosse mesmo a fórmula da prosperidade, por que a história econômica é um cemitério de conglomerados que confundiram acesso ao crédito com genialidade empresarial? A conferência da Morgan Stanley é vitrine, não confessionário. O que importa não é o que a Madison Air disse no palco, mas o que ela precisou esconder para caber no discurso. E o que se esconde debaixo de toda alavancagem crescente é sempre a mesma coisa: a aposta de que o ciclo nunca vai virar. O ciclo sempre vira.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.