Cinco vírgula seis bilhões de reais estão parados, oficialmente "esquecidos", nas prateleiras contábeis de bancos, financeiras, consórcios e cooperativas. Vinte e três milhões de brasileiros são credores dessa fortuna e a maioria absoluta sequer sabe. Repare no verbo escolhido pela imprensa dócil: esquecido. Como se dinheiro tivesse pernas, saísse andando sozinho e se perdesse atrás do sofá. Não esqueceram. Foi tarifa cobrada indevidamente, conta encerrada com saldo positivo que ninguém devolveu, cota de consórcio que virou pó estatístico, sobra de cooperativa que evaporou nos relatórios. Cada centavo desse monte tem dono, tem CPF, tem endereço. E tem, do outro lado do guichê, quem esteja rendendo com ele há anos.

A pergunta elementar que ninguém do sistema financeiro quer ouvir é simples: se o dinheiro é do cliente, por que a iniciativa de devolver não é automática, com telefonema, carta registrada, mensagem, propaganda em horário nobre? Um banco que gasta fortunas para vender seguro de celular, cartão premium e consórcio de moto elétrica de repente fica tímido, envergonhado, quase monástico, quando o assunto é entregar o que não é seu. O silêncio tem preço, e o preço é a rentabilidade do float, aquele intervalo mágico em que o recurso alheio trabalha para o dono da chave do cofre. Quatro bilhões estão parados em contas encerradas com saldo. Quatro bilhões que geram receita para quem administra, custo zero de captação, funding gratuito enquanto o legítimo dono paga cheque especial no andar de cima.

Historicamente, sempre que o poderoso segura o que pertence ao súdito, inventa-se um nome bonito para o confisco. Nas monarquias absolutistas chamavam de tributo real, direito da coroa, benesse do soberano. Hoje chama-se saldo residual, valor a receber, recurso não reclamado. A técnica é a mesma: transformar propriedade privada em zona cinzenta administrativa, criar fricção burocrática entre o dono e o bem, e esperar que o cansaço faça o serviço que a lei não autorizaria. O sistema de valores a receber criado pelo Banco Central foi vendido como bondade regulatória, quando na verdade é confissão pública de que a farra durou décadas sem que ninguém no andar de cima levantasse um dedo.

Note a assimetria que grita: quando você atrasa a fatura em dois dias, o algoritmo já disparou juros, multa, mora, negativação, cobrança terceirizada, ligação da moça simpática de call center. Quando o banco fica com o que é seu por dois anos, cinco anos, vinte anos, ninguém liga, ninguém cobra, ninguém paga juros retroativos, ninguém indeniza pela privação de uso. É a velha regra do capitalismo de compadrio bancário nacional: o cliente é sagrado quando deve, é invisível quando é credor. E o Estado, que deveria ser o árbitro imparcial, é sócio silencioso da festa, porque vive dos títulos públicos que essa mesma bancarada carrega e rola.

Consulte o Sistema de Valores a Receber no site do Banco Central, com CPF e data de nascimento, e descubra quanto foi retido do seu bolso enquanto você acreditava piamente que estava tudo em ordem. Não é achado do tesouro, não é sorte grande, não é presente de fim de ano. É restituição tardia de propriedade privada que nunca deveria ter saído do seu controle. E se der zero, tanto melhor, você faz parte da minoria que ainda confere extrato linha por linha. Se der qualquer coisa, guarde a lição: nas finanças, esquecimento tem sempre um beneficiário, e não é o distraído.

A moral do episódio é aquela que a experiência ensina e a cartilha oficial esconde: dinheiro deixado sob custódia alheia não dorme, trabalha. A única dúvida é para quem. Enquanto milhões de brasileiros comemoram poupança que rende menos que a inflação e CDB que mal cobre a taxa de administração, cinco vírgula seis bilhões geraram lucro silencioso para quem já tem lucro sobrando. Quem paga essa conta é o distraído, o falecido cuja família não sabia do vínculo, o consorciado que desistiu no meio do caminho. Quem recebe é sempre o mesmo balcão, com o mesmo logotipo, no mesmo endereço nobre da avenida.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.