A Manx Financial anunciou a fusão de três subsidiárias financeiras no Reino Unido numa única entidade operacional, e o mercado engoliu o comunicado com aquela cara de quem finge acreditar em papai noel corporativo. O release fala em ganho de eficiência, simplificação de estrutura, redução de custos administrativos, todo o vocabulário decorado que executivo de segundo escalão aprende no primeiro ano de MBA. Só que ninguém funde três empresas saudáveis por prazer estético. Fusão interna de subsidiárias é quase sempre confissão silenciosa de que uma delas estava sangrando e as outras vão bancar a transfusão sem que o acionista minoritário perceba.
O truque contábil aqui é antigo e elegante. Quando você tem três balanços separados, cada tropeço aparece nu, exposto, com nome e sobrenome. Quando você funde os três numa entidade só, os prejuízos de uma se dissolvem no caixa das outras, os ativos podres se misturam com os saudáveis, e o relatório anual seguinte vira sopa em que ninguém consegue mais separar o que é feijão do que é pedra. A auditoria olha o consolidado, aprova, e a diretoria comemora a tal simplificação. Simplificação para quem, exatamente? Para o investidor que agora enxerga menos, ou para o gestor que agora precisa explicar menos?
Repare no que não está sendo dito no comunicado. Não há detalhamento de quantos empregados ficam, quantos vão embora, qual subsidiária estava com margem apertada, qual carteira de crédito puxava o consolidado para baixo. Há apenas o mantra da eficiência, palavra mágica que serve para justificar demissão em massa, corte de agência, encolhimento de operação e reconhecimento tardio de que alguém, em algum momento, autorizou empréstimo que não deveria ter sido autorizado. Eficiência, no dicionário financeiro contemporâneo, é o eufemismo preferido para arrumar o que apodreceu antes que o cheiro chegue à imprensa.
Há ainda a questão regulatória, que ninguém no comunicado teve a coragem de mencionar. Consolidar três entidades numa só reduz o número de relatórios exigidos pelos reguladores britânicos, diminui os pontos de contato com a fiscalização, concentra a governança em menos gente e, convenientemente, torna mais difícil para o supervisor externo cruzar dados entre operações que antes eram independentes. Cada camada de opacidade que uma reestruturação corporativa adiciona é uma vitória silenciosa da diretoria contra quem deveria estar olhando por cima do ombro dela. E o supervisor, sobrecarregado como sempre, agradece a economia de papelada e passa para o próximo processo.
O padrão é conhecido, mundialmente conhecido. Instituições financeiras de porte médio, quando começam a sentir o aperto de juros altos, inadimplência crescente ou carteira concentrada em setor errado, recorrem a três manobras clássicas antes de admitir problema: reestruturam, renomeiam, refundem. A Manx acabou de fazer a terceira. Se daqui a seis meses aparecer troca de comando executivo, e daqui a doze aparecer captação de capital emergencial, ninguém deveria fingir surpresa. O comunicado de hoje é a primeira página de um capítulo cujo desfecho já foi escrito em muitas outras histórias corporativas.
O acionista da Manx que ainda não vendeu deveria ler o release três vezes e prestar atenção especialmente ao que ficou de fora. O que uma empresa esconde no comunicado é sempre mais valioso do que aquilo que ela decide anunciar em negrito.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.