Na sexta-feira, a margem de refino de gasolina no noroeste europeu subiu 16,92 dólares por tonelada. Parece número técnico, coisa de trader de mesa. Não é. É o retrato instantâneo de um continente que passou vinte anos fechando refinaria, cobrando imposto verde, subsidiando painel solar chinês e agora descobre, com espanto de burocrata pego no flagra, que combustível não brota de comunicado oficial. Quando a oferta encolhe por decreto e a demanda continua existindo porque as pessoas, veja só, ainda precisam ir trabalhar, a margem do refinador dispara. É aritmética de feira, não física quântica.
A pergunta que ninguém em Bruxelas quer responder é simples. Quem paga essa margem gorda? O motorista holandês que abastece o Volkswagen às seis da manhã para levar filho na escola. O caminhoneiro alemão que ainda não conseguiu comprar o tal caminhão elétrico prometido para 2035. A padaria belga que embute o diesel na baguete. Cada tonelada extra de margem vira centavo a mais no litro, e cada centavo a mais no litro vira imposto embutido em tudo que se move, que se aquece, que se produz. Siga o dinheiro e você vai encontrar o mesmo suspeito de sempre no fim da trilha: o cidadão pagante, a vaca leiteira eterna do projeto europeu.
O engraçado, se é que dá para rir disso, é o roteiro. Primeiro se demoniza a refinaria como poluidora. Depois se aumenta o custo regulatório até que fechar seja mais barato do que operar. Depois se importa combustível refinado do mesmo petróleo, só que refinado longe, onde a regra é mais frouxa. Depois se aplaude a queda das emissões domésticas, como se a fumaça respeitasse fronteira. E quando a conta chega na bomba, culpa-se a especulação, a guerra, o clima, a Rússia, o capitalismo, qualquer coisa menos a própria mão que assinou o decreto. É o velho truque da janela quebrada, só que agora com selo ambiental e assinatura de comissário.
Há algo mais profundo aqui, e vale dizer sem rodeio. Uma civilização que trata sua matriz energética como problema moral em vez de questão técnica está pedindo para empobrecer. Preço de energia não é opinião, é sinal. Sinal de escassez, de abundância, de risco, de estoque, de capacidade instalada. Quando o planejador central resolve substituir esse sinal por meta política, o resultado é sempre o mesmo, em toda época, em todo continente: fila, apagão, racionamento, margem gorda para poucos, conta salgada para muitos. A União Europeia está redescobrindo, no varejo, aquilo que economias planejadas do século passado descobriram no atacado.
E o que se vê é só a superfície. O que não se vê é o investimento em capacidade de refino que não aconteceu porque nenhum executivo sensato aplica bilhões num ativo que será proibido em quinze anos. É a competitividade industrial que evapora quando energia custa três vezes mais do que no concorrente americano. É o emprego que migra, silencioso, para jurisdições onde ninguém confunde termodinâmica com virtude. É o fabricante alemão que passa a produzir na Carolina do Sul. É o químico que fecha em Antuérpia e reabre em Houston. Cada 16 dólares de margem extra é, na verdade, uma migração adiada, um investimento cancelado, um futuro industrial sendo terceirizado para quem ainda leva economia a sério.
No Brasil, olhamos essa cena com aquela mistura de deboche e apreensão que só quem já apanhou reconhece. Deboche porque a Europa, que passou décadas nos dando lição de sustentabilidade, agora paga caro para descobrir que ideologia não move motor. Apreensão porque nossos próprios comissários locais, com sotaque de Esplanada, já estão copiando o manual: taxonomia verde, meta de descarbonização, imposto seletivo, restrição ao investimento em óleo e gás. O roteiro é conhecido, o final também. A diferença é que aqui a bomba já custa caro sem a desculpa do inverno rigoroso.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.