A margem de refino do diesel na Europa caiu 3% em relação aos níveis recordes das últimas semanas, e o dado, aparentemente técnico, escancara uma verdade que a burocracia de Bruxelas gostaria de manter enterrada. Durante meses, ministros, comissários e colunistas de jornal econômico repetiram em uníssono que o continente enfrentava uma escassez estrutural, permanente, quase metafísica, de combustível. Escassez essa que, curiosamente, justificava taxa de carbono, subsídio a carro elétrico chinês disfarçado de europeu, e uma enxurrada de regulação que fez o preço do óleo diesel na bomba virar item de luxo para o caminhoneiro polonês e o agricultor francês. Bastaram algumas semanas de preço alto de verdade, sem intervenção heroica de nenhum burocrata iluminado, para que refinarias globais reorganizassem fluxos, importações se ajustassem e a margem começasse a ceder. Milagre? Não. Preço.

É o mecanismo mais antigo e mais desprezado pelos planejadores centrais. Quando um bem fica caro, gente que jamais pensou em produzi-lo começa a produzir, gente que estocava começa a vender, gente que consumia demais começa a economizar. Ninguém precisa mandar. Ninguém precisa reunir comitê em Bruxelas com PowerPoint sobre transição energética. O preço, sozinho, faz o trabalho que mil comissões não fariam em década. E é exatamente isso que a União Europeia passou os últimos vinte anos tentando desligar, com REPowerEU, com Green Deal, com Fit for 55, com regulação de refinaria, com fechamento sumário de capacidade instalada em nome do clima. A escassez que eles agora fingem combater foi, em larguíssima medida, fabricada por eles.

Siga o dinheiro e o quadro fica ainda mais nítido. Cada euro que o motorista europeu paga a mais no diesel se divide, grosso modo, entre três beneficiários. O primeiro é o próprio Estado, via imposto especial de consumo e IVA cascateado, que representa mais da metade do preço final em país como França, Itália ou Alemanha. O segundo é a rede de subsidiados verdes, produtores de biocombustível caro, fabricantes de bateria com margem garantida em contrato, consultoria de ESG que vive de vender relatório sobre pegada de carbono para empresa obrigada por lei a comprar o relatório. O terceiro, e menor, é a refinaria propriamente dita, aquela que efetivamente entrega o produto. Quando a margem de refino sobe, a mídia grita cartel. Quando a margem do imposto sobe todo mês, silêncio litúrgico.

Essa queda de 3% também expõe a fragilidade da tese central da política energética europeia, que é a suposição de que se pode substituir capacidade instalada por decreto sem pagar preço nenhum. Fechar refinaria, banir motor a combustão para 2035, impor mistura obrigatória de biocombustível, tudo isso tem custo, e o custo não some porque o burocrata assinou papel. Ele reaparece, pontualmente, no bolso de quem produz, transporta e consome. E reaparece na dependência crescente de diesel importado da Índia, da Turquia, do Oriente Médio, refinado com padrão ambiental que faria qualquer ambientalista europeu chorar, se ele soubesse que existe algo além da bandeira do próprio país. A hipocrisia é escrita em letra graúda.

O que a ligeira acomodação de margem ensina, portanto, não é que a crise acabou. É que ela nunca foi o que disseram que era. Foi, e continua sendo, um subproduto de escolha política deliberada, feita por gente que não paga a conta, em nome de uma emergência que serve maravilhosamente bem para justificar mais imposto, mais regulação, mais dependência do cidadão em relação ao aparelho estatal que promete salvá-lo do problema que ele mesmo criou. Enquanto o motor de mercado, quando deixam ele respirar por cinco minutos, continua fazendo silenciosamente aquilo que sempre fez, que é ajustar oferta e demanda sem pedir licença a ninguém.

Fica a lição que a estatística de hoje sussurra e que amanhã será esquecida pelos jornais oficiais. Preço não é inimigo, é mensageiro. Matar o mensageiro com regulação, imposto e planejamento não resolve escassez, apenas transfere o custo para quem não tem lobby em Bruxelas. E quando a margem cede, como cedeu agora, ninguém sobe ao púlpito para agradecer ao mercado. Batem palma para o próximo pacote de intervenção, que virá acompanhado da próxima crise, que exigirá o próximo pacote. É o moto-contínuo do intervencionismo, e ele funciona perfeitamente, desde que você não seja o pagador da conta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.