O episódio é daqueles que valem mais que mil pesquisas. Diante de uma plateia devidamente arrebanhada em Guarulhos, com o presidente da República servindo de fiador do espetáculo, a candidata ao Senado abriu a boca e pediu voto no 300. O detalhe pitoresco é que o 300 pertence a um adversário, justamente aquele que ela ajudou a demonizar por anos como o algoz da Amazônia. Um lapso, dirão os assessores. Um sintoma, diria qualquer um que ainda saiba ler o que as palavras entregam quando o script falha.

Há uma lei silenciosa nesses ambientes onde tudo é encenação: o improviso denuncia o que o discurso esconde. A candidata passou décadas construindo uma marca pessoal de coerência mística, aquela figura de sandália franciscana e olhar de mártir que supostamente pairaria acima da vulgaridade da política partidária. Pois a mesma senhora que se apresenta como consciência ecológica do país não consegue guardar de cor três dígitos que deveriam estar tatuados na testa de qualquer candidato a duas semanas da eleição. Quem não sabe o próprio número está pedindo, no fundo, para que o eleitor também esqueça.

Convém perguntar quem paga a conta dessa performance. A estrutura montada em Guarulhos, o palco, o som, a logística presidencial, o cortejo de correligionários, tudo isso sai do bolso de alguém, e esse alguém somos todos nós, via fundo partidário, fundo eleitoral, cargos comissionados que se transformam em cabo eleitoral, ministérios que viram comitê. A ex-ministra do Meio Ambiente virou, pela quinta ou sexta vez, mercadoria de barganha entre siglas que a hospedam por temporada. É a mesma senhora, o mesmo santinho, o mesmo repertório, apenas com legendas trocadas conforme o vento sopra. Coerência, nesse jogo, é palavra que perdeu o significado no dicionário oficial de Brasília.

A ironia, essa dama impiedosa, resolveu comparecer ao evento sem convite. Quem passou anos afirmando que o rival era o demônio motosserra da floresta, num arroubo freudiano, pede voto exatamente no número dele. É como se o padre no meio da missa esquecesse o nome do santo e invocasse, sem querer, o do concorrente ateu. O inconsciente é traidor porque não foi treinado para mentir; ele apenas devolve o que o cotidiano imprimiu na memória. Tanto se falou do 300 para atacá-lo que o 300 grudou na cabeça, enquanto o 180 próprio ficou como detalhe secundário, coisa de menor importância diante da grande missão de aparecer no palanque com o chefe.

Há aqui uma lição que nenhum manual de marketing político vai admitir em público. O eleitor está sendo convidado, mais uma vez, a delegar o poder sobre a própria vida, o próprio dinheiro e a própria propriedade a uma classe que não consegue sequer memorizar as instruções básicas do próprio ofício. Se a candidata erra o número que ela mesma escolheu, imagine a atenção que dedicará ao orçamento da União, aos projetos que passarão pela sua mesa, às emendas que carimbará no escuro. O Senado, essa casa que deveria ser revisora, virou balcão de aluguel para biografias recicladas, e o cidadão comum paga o preço com juros compostos: paga o salário, paga o gabinete, paga a passagem aérea, paga a assessoria, paga o próprio prejuízo em forma de imposto sobre absolutamente tudo o que respira.

No fim, o gesto involuntário revela mais que qualquer plataforma de governo impressa em papel couché. A boca falou o que a alma sabe: um mandato é um mandato, uma cadeira é uma cadeira, e o número, em última análise, é apenas o rótulo intercambiável de um mesmo produto que se vende há gerações. O que muda é o freguês que aceita comprar, na fé cega de que desta vez, quem sabe, o remédio será diferente. Não será. E o riso amargo diante do lapso talvez seja a única forma honesta de participação política que ainda nos resta.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.