Uma jornalista americana, dessas que ainda leem balanços em vez de repetir comunicados oficiais, cravou em letra fria o que a imprensa palaciana daqui evita sussurrar: o mesmo Supremo que destravou a candidatura do atual ocupante do Planalto é o mesmo que pode assinar sua certidão de óbito político. Some a isso o rombo do Banco Master, e o cenário deixa de ser conspiração de botequim para virar aritmética de cartório. A pergunta que interessa é banal, e por isso ninguém quer respondê-la em rede nacional: quem pagou a conta da anulação das condenações, e quem vai pagar a conta quando essa mesma conta for reapresentada com juros?

Convém lembrar como funciona esse arranjo, porque a memória curta é o principal insumo da democracia brasileira. Um tribunal que se autoatribui poderes de constituinte, de legislador e de censor não presta favor de graça. Quando onze senhores de toga decidem quem pode e quem não pode disputar eleição, eles não estão distribuindo justiça, estão distribuindo elegibilidade como quem distribui alvará de funcionamento. E alvará, todo comerciante sabe, se renova. O preço da renovação não vem no boleto, vem no silêncio conveniente, na nomeação certa, na pauta engavetada, no inquérito eterno contra o inimigo do momento.

Entra em cena o Banco Master, esse eufemismo bancário que a imprensa trata com pinças enquanto o contribuinte paga o pato via garantias implícitas e socorros disfarçados. Um banco que cresceu comprando precatórios com deságio e vendendo CDBs com prêmio, ou seja, arbitrando a desordem fiscal do próprio Estado que agora precisa salvá-lo, não é uma anomalia do mercado, é o mercado exatamente como o desenharam. Privatizam-se os lucros do arbitrista, socializam-se os prejuízos quando o castelo de cartas balança. E o cidadão médio, que nunca ouviu falar em precatório antes de ler a manchete, descobre que sua poupança está garantindo a farra alheia.

A ironia é fina como bisturi: o governo que se elegeu prometendo enquadrar os banqueiros descobre que precisa dos banqueiros para não afundar, e o tribunal que o salvou descobre que salvá-lo de novo custa caro demais em capital político. Quando a conta chega, cada aliado calcula em silêncio se paga mais a pena defender o afogado ou empurrar a cabeça dele para baixo mais uma polegada. Aristocracias palacianas funcionam assim desde que existe palácio: a lealdade dura até o momento exato em que a traição rende mais que a fidelidade, e nem um segundo além.

Chame isso de crise institucional se quiser adornar a coisa com verniz acadêmico. É mais honesto chamar pelo nome antigo: acerto de contas entre facções que dividiram o mesmo espólio e agora discutem se ainda dá para dividir. O eleitor, esse figurante que aparece de quatro em quatro anos para legitimar o roteiro, vai receber a fatura em forma de inflação, imposto novo com nome bonito, e um discurso emocionado sobre a necessidade de defender a democracia dos inimigos da democracia. Traduzindo do palaciano para o português: paguem, calem, e agradeçam.

No fim, a pergunta volta com a mesma força com que começou. Quem paga é sempre o mesmo, o sujeito que produz, poupa, e não tem assento no plenário nem gabinete no ministério. Quem recebe também é sempre o mesmo, o cortesão de toga, de terno ou de faixa, que aprendeu que no Brasil o poder não se conquista, se aluga, e o aluguel sobe todo mês. O resto é folhetim para entreter quem ainda acredita que aquilo é uma república.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.