Uma usina de dois bilhões e setenta milhões de reais nasce em Campo Novo do Parecis para triturar um milhão e trezentas mil toneladas de milho por ano e cuspir seiscentos milhões de litros de etanol. O anúncio vem embrulhado no papel celofane de sempre, o do progresso, o da transição energética, o da geração de empregos, e o cidadão médio bate palmas sem perceber que a palma que ele bate é a mesma que sai do seu bolso. Porque não existe megaobra dessa dimensão no Brasil que não tenha, em algum ponto da cadeia, o dedo gorduroso do BNDES, do FCO, dos financiamentos subsidiados, das isenções fiscais estaduais negociadas a portas fechadas, dos créditos de descarbonização inventados por decreto para criar mercado onde o mercado, sozinho, jamais criaria.

Repare na engenharia do arranjo. O milho, que poderia alimentar gente, gado, aves, virar farinha, óleo, ração barata, será queimado no motor de um automóvel para que alguém, muito longe dali, exiba um selo verde na embalagem. E o consumidor da bomba paga esse etanol com um preço que já embute a mistura obrigatória imposta pelo governo, ou seja, ninguém escolheu comprar aquilo, foi empurrado pela lei. Chama-se isso de mercado. Se um padeiro obrigasse cada cliente a levar dois pães além do que pediu, seria denunciado. Quando o Estado faz o mesmo com o combustível, chama-se política pública.

A pergunta que os jornais econômicos, especializados em reproduzir release, jamais fazem é a mais elementar de todas. Quem paga e quem recebe? Paga o motorista, que abastece obrigado. Paga o contribuinte, que banca o subsídio via banco público. Paga o consumidor de alimentos, que vê o milho encarecer porque uma parcela crescente da safra vai para o tanque e não para o prato. Paga o pequeno produtor, que compete com o gigante integrado a preços artificialmente puxados pela demanda induzida. E quem recebe? A trading verticalizada, o operador logístico amigo do príncipe, o fundo estrangeiro que aporta capital porque calculou o retorno já contando com o dinheiro público na equação, e a burocracia federal que se legitima vendendo o rótulo de sustentabilidade num país onde o esgoto ainda corre a céu aberto em metade das cidades.

Há uma ironia deliciosa em ver a mesma casta que passou décadas condenando o agronegócio como vilão climático agora batendo continência para uma indústria que existe apenas porque o agronegócio existe em escala industrial monstruosa. O etanol de milho não brotou espontaneamente do capitalismo brasileiro; ele foi parido por decreto, amamentado por subsídio, vacinado por mandato de mistura e sustentado por uma narrativa global de descarbonização que rende dividendos políticos em Davos e prejuízos silenciosos no supermercado. Roma, no auge da decadência, distribuía trigo de graça para acalmar a plebe enquanto o senador enriquecia com o contrato de transporte do grão. Trocamos o trigo pelo milho, o Coliseu pela COP, e mantivemos intacto o esquema.

O mais engraçado, se houvesse graça em quatorze zeros à direita, é a solenidade com que se anuncia a obra como triunfo do capital privado. Privado é o lucro, isso sim, blindado por contrato. O risco, esse continua socializado como sempre foi, pulverizado entre milhões de brasileiros que jamais serão consultados sobre para onde vai o crédito farto do banco de fomento, o incentivo do ICMS que o governador assinou entre um cafezinho e outro, o financiamento verde do fundo climático internacional cujo custo, mais cedo ou mais tarde, retorna em imposto, tarifa ou inflação. Chamam isso de desenvolvimento. Poderiam chamar pelo nome correto, transferência de renda de baixo para cima com selo ambiental na embalagem.

Enquanto a fita for cortada com sorrisos e a imprensa continuar copiando o parágrafo de rodapé do assessor de comunicação, o esquema se reproduz. Basta trocar o produto, o estado, o político da foto. O milho de hoje é a cana de ontem, é o biodiesel de anteontem, é o pré-sal de amanhã. Muda o rótulo, o beneficiário permanece. E o cidadão, esse sujeito curioso que ainda acredita que paga imposto para ter escola e hospital, continua pagando também pela usina que ele nem sabia existir, para produzir um combustível que ele é obrigado a comprar, num carro cada vez mais caro por causa de outras regulações que ele também não pediu. O rei está nu, dança sozinho no meio do cerrado, e insiste que veste seda.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.