Seis bilhões e oitocentos milhões de reais. Repita o número devagar, deixe que ele se acomode na consciência antes que o noticiário o transforme em abstração palatável. É esse o preço estipulado, hoje, para escavar um tubo de concreto de mil e quinhentos metros sob o canal do Porto de Santos, sendo oitocentos e setenta deles submersos. Traduzindo para linguagem que ninguém quer usar em coletiva: cada metro do trecho imerso custará algo em torno de sete milhões e oitocentos mil reais, valor que compraria uma casa razoável em bairro nobre de qualquer capital do país. E isso é o orçamento inicial, aquela ficção contábil que serve para engolir a licitação; o número final, todo mundo sabe, virá acompanhado de aditivos, reequilíbrios econômico-financeiros e a inevitável descoberta de que o solo marinho, veja só, é mais complicado do que parecia no PowerPoint.
A pergunta que ninguém faz nas cerimônias de assinatura é a mais elementar de todas: quem paga e quem recebe? Paga o pescador de Santos que nunca atravessará o canal senão pela balsa velha que já servia seu avô. Paga o comerciante do interior paulista que vê o ICMS subir para bancar a proeza. Paga o aposentado do Piauí, porque em federação bagunçada como a nossa dinheiro público não conhece fronteira estadual quando se trata de subir imposto. Recebe, do outro lado do balcão, o consórcio de empreiteira que já frequenta há décadas as antessalas do poder, os escritórios de advocacia especializados em concessão, os operadores do BNDES que farão o funding, os políticos que colocarão nome de parente na inauguração e, é claro, a classe consultora que vive de emitir parecer favorável a qualquer coisa que gere honorário.
Vendem a obra pelo argumento sentimental de que duas cidades separadas por poucas centenas de metros ainda dependem de balsa ou de desvio rodoviário. Como se a existência de um inconveniente logístico local justificasse socializar o custo entre duzentos milhões de brasileiros que jamais pisarão naquele estuário. É o velho truque: concentra-se o benefício em um punhado de eleitores e empreiteiros bem localizados, dilui-se o custo entre a massa amorfa dos pagadores de tributo, e ninguém protesta porque a fatia individual da conta parece pequena demais para valer a briga. Assim se constrói pirâmide no Egito, catedral gótica na França e túnel submarino no Brasil: com trabalho alheio e aplauso obrigatório.
Se a travessia fosse tão economicamente vital quanto proclamam, o setor privado já teria feito. Uma ponte, um túnel, uma linha de ferry expandida, qualquer coisa que gerasse retorno cobrando pedágio de quem efetivamente usa. Mas ninguém quis colocar capital próprio, e isso deveria acender uma lâmpada vermelha do tamanho do farol de Alcatrazes. Quando nenhum investidor privado topa uma obra mesmo com dinheiro sobrando no mercado, é porque a matemática não fecha, e a matemática só passa a fechar quando entra o padrinho generoso do Tesouro Nacional para garantir que o prejuízo será estatizado enquanto o lucro segue a rota bem conhecida das contratantes. Chamam isso de parceria público-privada; o nome honesto seria transferência público-particular.
Há ainda o detalhe histórico que os entusiastas do concreto armado esquecem de mencionar. Toda megaobra brasileira, sem exceção, entregou-se atrasada, superfaturada e com laudo técnico que futuramente exigirá reforma antes mesmo de pagar a primeira parcela do financiamento. Estádio de Copa, refinaria em Pernambuco, hidrelétrica na Amazônia, trem-bala que nunca saiu do papel: o padrão é tão consistente que já configura método. Anunciam seis bilhões e oitocentos milhões, apostem comigo que terminará em doze, e ainda assim o inaugurador cortará a fita sorrindo, porque o dinheiro não saiu do bolso dele. Saiu do seu.
A liberdade de ir e vir entre duas margens de um canal é problema real de quem mora naquelas margens, e problemas reais têm soluções privadas, voluntárias, contratuais, que respeitam a propriedade e o cálculo econômico de quem arrisca o próprio patrimônio. O que se aprovou não é solução; é ritual. Ritual de poder, ritual de compadrio, ritual em que o Estado se investe da toga de provedor benevolente para justificar, mais uma vez, o assalto legalizado que chama de arrecadação. E o cidadão, treinado desde a escola a confundir obra pública com progresso e imposto com dever cívico, aplaudirá a maquete iluminada sem perceber que o buraco no fundo do mar é apenas a metáfora mais literal já produzida do que fazem com o dinheiro dele.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.