A manchete oficial é aquela coisa hipnótica que os ministros adoram: a Austrália gerou mais empregos do que os economistas previam em agosto. Repetida em cadeia por porta-vozes e apresentadores de telejornal, a frase serve de calmante para o eleitorado nervoso. Só que, no mesmo boletim, escondido dois parágrafos abaixo, está o número que ninguém quer ler no microfone: a taxa de desemprego subiu ao pico de cinco anos. Quer dizer, criaram mais vagas e, ao mesmo tempo, sobra mais gente sem trabalho. Não é milagre, não é paradoxo, é aritmética simples que quem administra estatística oficial finge não entender.
Olha, o truque é antigo e sempre o mesmo. O emprego criado aparece no palco, iluminado, com aplauso do lobby empresarial que recebeu incentivo e do sindicato que negociou o reajuste. O emprego que não existe, aquele que morreu porque o custo regulatório subiu, porque a energia foi encarecida por delírio verde, porque o crédito artificialmente barato da década passada agora cobra a fatura em juros altos, esse emprego não aparece em lugar nenhum. Ele é o buraco no bolso do cidadão que perdeu a vaga na mineração, na construção civil, na pequena indústria que fechou porque não conseguiu competir com a importação subsidiada. A conta invisível é sempre paga pelo mesmo sujeito: o que não tem lobby em Camberra.
Vale a pena perguntar de onde veio o boom que agora azeda. Foi da mesma fábrica que produz todos os booms artificiais do planeta: banco central despejando liquidez, governo despejando estímulo, e uma legião de economistas de plantão jurando que dessa vez seria diferente. Não foi. Nunca é. Quando o dinheiro é impresso sem lastro em produção real, o mercado embriaga, contrata em excesso, investe em projetos que não fazem sentido, e depois vem a ressaca. A ressaca é essa taxa de desemprego que sobe enquanto a manchete tenta convencer que está tudo bem porque o número absoluto de vagas foi maior que a previsão do consenso. O consenso, aliás, erra com uma consistência tão bonita que quase inspira ternura.
Repare no detalhe que o repórter econômico não sublinha: a força de trabalho está crescendo mais rápido do que a capacidade da economia de absorvê-la. Imigração recorde, participação em alta, subsídios que atraem gente para o mercado formal enquanto a regulação empurra empregador para a informalidade ou para a falência. Isso não é acaso, é política pública com nome e endereço. Cada regra nova de compliance, cada meta climática imposta por burocrata em Genebra, cada rodada de aumento salarial decretada por comitê tripartite, tudo isso soma no denominador da equação e nenhum ministro tem coragem de reconhecer.
E aí entra a parte que mais irrita quem paga a conta: o remédio proposto vai ser mais do mesmo veneno. Vão pedir novos programas de qualificação profissional, novas subvenções para setores estratégicos, novo pacote de investimento estatal em energia limpa, nova rodada de aperto regulatório para proteger o trabalhador do trabalho. Cada intervenção gera a distorção que exigirá a próxima intervenção, e o cidadão comum, aquele que só queria trabalhar em paz, vira variável de ajuste no gráfico de PowerPoint do próximo secretário de Fazenda. A liberdade de contratar e ser contratado foi transformada em favor concedido pelo Estado, e favor concedido, todo mundo sabe, sempre vem com fatura.
A verdade nua é essa: uma economia saudável não precisa de manchete comemorando que criou mais vagas do que o esperado, porque numa economia saudável isso seria trivial. Manchete comemorativa é sintoma de doença crônica, é o paciente terminal se orgulhando de ter conseguido levantar da cama. Enquanto Camberra continuar tratando o mercado de trabalho como jardim que precisa ser podado por jardineiro-chefe, o desemprego vai continuar subindo em silêncio embaixo dos números maquiados. Não existe almoço grátis, não existe pleno emprego decretado, e não existe estatística que resista muito tempo à realidade do bolso vazio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.