O palco do Connect 2026 foi montado com a solenidade de quem lança uma vacina, mas o produto era outro. Óculos com câmera, microfone, alto-falante e um agente de inteligência artificial que atende pelo seu nome, agenda seus compromissos, responde suas mensagens, sugere o que comprar e, de brinde, olha para tudo que você olha. Zuckerberg subiu ao púlpito com aquele sorriso de quem vendeu o mesmo peixe podre três vezes seguidas e voltou para uma quarta rodada. Chamou de revolução. Vendeu como libertação. O que entregou foi um coleira digital com armação de acetato.
Convém lembrar que essa mesma empresa passou a última década sendo multada, processada e humilhada em depoimentos parlamentares por vazar, vender e manipular dados de bilhões de pessoas. O sujeito que jurou de pés juntos em 2018 que ia proteger a privacidade do usuário aparece em 2026 oferecendo um dispositivo que grava o mundo em tempo real, do lado do olho, o dia inteiro, e alimenta com esse fluxo um modelo de linguagem cuja função explícita é prever seu próximo desejo antes de você mesmo saber. É como confiar a chave da adega ao bêbado que arrombou o depósito na semana passada, só que dessa vez ele veio de smoking.
Siga o dinheiro e a névoa se dissipa. O óculos não é o produto, é o anzol. O produto é você, sua conversa no jantar, o rosto do seu filho, a marca do tênis do vizinho, o preço da carne no mercado que você frequenta, a expressão de tédio que você faz quando o chefe fala. Tudo isso vira treino de modelo, vira segmentação de anúncio, vira ativo negociado no balanço de uma companhia listada em Nova York. O agente pessoal que promete organizar sua vida é, na prática, o vendedor mais bem informado da história do comércio, e ele mora dentro da sua cabeça vinte e quatro horas por dia. Você paga mil e quinhentos dólares pelo privilégio de ser a matéria-prima.
Há uma piada antiga sobre o camponês que troca a vaca por feijões mágicos e volta para casa se achando o mais esperto do vilarejo. A diferença é que o feijão da fábula ao menos brotava. Aqui, o que brota é dependência. O agente decide seu roteiro, filtra suas notícias, escreve seus e-mails, escolhe seu restaurante, e em pouco tempo você descobre que perdeu o hábito de decidir qualquer coisa sozinho. É a tirania mais eficiente já inventada, porque é aquela que a vítima aplaude, compra em prestações e recomenda aos amigos. Não precisa de gulag quando o sujeito entrega a alma sorrindo no boleto.
E antes que apareça o entusiasta de plantão dizendo que é só não comprar, convém notar que a coisa não fica no comprador. Quem usa o óculos grava quem está do lado, e quem está do lado nunca consentiu com nada. A externalidade é a rotina inteira do próximo, capturada por um dispositivo alheio, processada por um servidor no Oregon, monetizada por um algoritmo em Palo Alto. Chamam isso de inovação. O nome correto é vigilância privatizada com selo de design escandinavo, e a diferença entre ela e a versão estatal chinesa é apenas o departamento de marketing.
Resta a pergunta que ninguém no Connect fez, porque ninguém em uma keynote de mil e quinhentos dólares por convite tem interesse em fazer. Se o produto é tão libertador, por que precisa de tanta gente jurando que é libertador? A liberdade genuína não precisa de campanha publicitária, ela se explica sozinha no uso. Quando um objeto exige exército de influenciadores, executivos, jornalistas contratados e relatórios patrocinados para convencer você de que ele é bom para você, o mais provável é que ele seja excelente para outra pessoa. E essa outra pessoa, coincidentemente, é a mesma que vai receber os dividendos no fim do trimestre.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.