A fabricante de chips de memória divulgou uma projeção de receita bem acima das estimativas de Wall Street, empurrada pela demanda de data centers de inteligência artificial, e a ação disparou no after-hours como se a empresa tivesse descoberto ouro em Marte. Analistas correram para elevar preço-alvo, gestores repetiram o mantra do "supercycle", e o noticiário fez o de sempre: pegou o release da empresa, trocou três palavras e chamou de análise. Ninguém, absolutamente ninguém, se deu ao trabalho de perguntar o que está financiando essa orgia de capex em GPUs e memória HBM que consome mais energia que país europeu de porte médio.
Olha, o roteiro é velho e rima com todos os outros. Em 2000 era fibra ótica, em 2007 era imóvel americano, em 2021 era criptomoeda de macaco desenhado, e agora é chip de IA. Toda mania especulativa tem uma justificativa tecnológica plausível, um punhado de empresas que realmente entregam algo útil, e uma multidão de oportunistas que sobem no vagão até o trem descarrilar. A Micron faz memória, memória é insumo real, e existe demanda real, ninguém discute. A pergunta que interessa é outra: quanto dessa demanda é produtiva e quanto é fruto de crédito artificialmente barato que fez toda big tech pensar que precisa gastar cinquenta bilhões por ano em infraestrutura sem retorno claro?
Quer dizer, siga o dinheiro. As hyperscalers, Microsoft, Meta, Amazon, Google, estão queimando caixa em capex de IA num ritmo que não tem paralelo histórico, e a conta só fecha porque juros ficaram artificialmente reprimidos por uma década e porque o mercado ainda acredita que a receita da IA generativa vai justificar tudo isso. A receita não está aparecendo. O que aparece são projeções, roadmaps, promessas e mais capex. A Micron é fornecedora dessa cadeia, então enquanto a festa durar ela vende memória a preço de champanhe, mas o dia em que a Meta ou o Google decidirem que gastaram demais e apertarem o cinto, a fila anda para trás inteirinha, e memória vira commodity de novo do jeito brutal como sempre foi.
E existe o que ninguém quer olhar, que é o subsídio. O CHIPS Act americano jogou cinquenta e dois bilhões de dólares na indústria de semicondutores, dos quais a Micron abocanhou uma fatia gorda para fábricas em Nova York e Idaho. Isso não é receita de mercado, é dinheiro do contribuinte disfarçado de estratégia industrial. A projeção espetacular vem embalada por uma estrutura de custos que só existe porque o governo americano decidiu, na base do "planejamento inteligente", que ia recriar uma cadeia produtiva no colo. Toda vez que o Estado escolhe vencedores, o vencedor de curto prazo é a empresa subsidiada, e o perdedor de longo prazo é o pagador de impostos que financiou capacidade que talvez o mercado não precisasse.
Me diz uma coisa, alguém se lembra do que aconteceu com a memória DRAM entre 2018 e 2019? Preço despencou setenta por cento, a Micron demitiu, cortou capex, e as mesmas casas de análise que hoje sobem preço-alvo estavam recomendando venda naquela época. Ciclo de memória é ciclo de porco: excesso de investimento na alta, colapso na baixa, esquecimento coletivo, e repita. A diferença desta vez é que o ciclo está montado sobre uma tese, a de que IA generativa vai monetizar o suficiente para justificar trilhões em infraestrutura, que ainda não foi comprovada em nenhum balanço que se preze. ChatGPT dá prejuízo, Copilot dá prejuízo, e Nvidia lucra porque vende picareta na corrida do ouro. Quem compra a picareta ainda vai descobrir se tem ouro na mina.
O barulho de hoje é o mesmo barulho de sempre, e o resultado tende a ser o mesmo: aqueles que entraram cedo saem ricos, aqueles que compraram no pico da euforia pagam a conta, e nos jornais de dois anos daqui vai haver uma matéria melancólica explicando "o que deu errado" como se ninguém pudesse ter previsto. Podia. Está previsto. Só não interessa a quem está lucrando com a festa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.