A Microsoft anunciou aumento de 8% no dividendo trimestral, agora em US$ 0,98 por ação, e a notícia passou quase como rotina nos terminais. Pois é justamente aí que mora o ponto. Uma empresa privada gerou tanto caixa, com tanta consistência, que devolve rios de dinheiro aos donos sem precisar de discurso, sem programa de governo, sem CPI, sem marco regulatório da inteligência artificial. Só entrega. E quem produz, decide o que fazer com o que produziu. É simples assim, e é exatamente isso que incomoda quem vive de administrar o dinheiro alheio.
Repare no mecanismo. A empresa acumula lucro porque milhões de pessoas, voluntariamente, resolveram pagar por Windows, Azure, Copilot, Office. Ninguém foi obrigado, ninguém foi coagido, ninguém teve o salário retido na fonte para financiar a próxima licença corporativa. O contrato é livre dos dois lados, e o resultado é uma máquina de capital que agora derrama US$ 0,98 por ação, quatro vezes por ano, na conta de aposentados americanos, fundos de pensão canadenses, viúvas japonesas e, sim, do algoritmo do seu fundo de investimento que você nem sabia que tinha Microsoft dentro. É a tal ordem que ninguém desenhou, funcionando enquanto o desenhista oficial dorme.
Agora vire a cabeça para o sul. A Petrobras, gigante nacional com reservas invejadas pelo mundo inteiro, distribui dividendo quando o Palácio deixa, na hora que o Palácio quer, no valor que o Palácio decide. O acionista minoritário é figurante numa peça em que o roteirista muda o final conforme a conveniência eleitoral. Vale lembrar que dividendo estatal virou caixa dois de campanha, financiamento disfarçado de programa social, e o resto do mercado observa aterrorizado, porque sabe que amanhã pode ser a vez de qualquer setor considerado estratégico pelo humor do ministro da vez.
E aí entra a parte que ninguém quer discutir em voz alta. Enquanto Redmond distribui bilhões, o Congresso brasileiro debate taxar dividendo em 15%, com aquela ladainha manjada de justiça tributária e progressividade. Traduzindo do economês para o português: querem pegar mais uma fatia do capital que já foi tributado como lucro da empresa, tributado como faturamento, tributado como folha, tributado como movimentação financeira, tributado como consumo do insumo que virou o produto que gerou o lucro. Bitributação é eufemismo. O nome técnico disso é confisco em prestações, e o resultado prático é fuga de capital, empresa fechando capital na bolsa, empreendedor migrando sede para Delaware ou Dubai. Todo mundo sabe. Fingem que não.
Existe uma pergunta simples que ninguém do andar de cima quer ouvir. Se distribuir lucro é tão nocivo quanto o discurso oficial sugere, por que a economia americana, que permite exatamente isso há mais de um século, produz as empresas mais valiosas do planeta, os salários mais altos, a inovação que o Brasil importa e paga em dólar? E se controlar dividendo é tão virtuoso, por que a Petrobras, cotada a preço de banana, vale menos que uma fatia da Nvidia, sendo dona de campos de petróleo que a Nvidia jamais terá? A resposta está bem debaixo do nariz, mas exige coragem para enxergar. Capital foge de onde é maltratado e se acumula onde é respeitado. Não tem ideologia, tem gravidade.
Enquanto isso, a próxima geração de brasileiros vai continuar aprendendo que empresa lucrativa é suspeita, que acionista é rentista, que dividendo é privilégio, e que o Estado é o único agente moralmente autorizado a decidir o destino da riqueza produzida por quem trabalha. Depois estranham quando o jovem talentoso pega o passaporte e vai programar em Seattle, comprar ação da Microsoft e receber, quatro vezes por ano, o dividendo que a terra natal nunca deixou ele receber em paz. O capital não tem pátria, mas tem memória. E ele lembra muito bem quem o tratou como criminoso.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.