Passaram-se semanas desde que as águas desceram das montanhas do Nepal engolindo aldeias, estradas e famílias inteiras, e o número oficial de desaparecidos continua na casa dos milhares, como se o tempo tivesse parado para os mortos enquanto os vivos aguardam papelada. A imagem que se vende lá fora é a da fúria da natureza, do clima que enlouqueceu, da inevitabilidade cósmica. A imagem que ninguém quer mostrar é a de um aparato estatal inchado, incapaz de coordenar o próprio serviço básico de resgate, e que agora terceiriza a culpa para as nuvens.

Toda enchente dessa magnitude expõe a mesma verdade desconfortável, e é bom repeti-la porque o mundo insiste em esquecer. Encostas ocupadas sem critério, obras públicas superfaturadas que desabam ao primeiro sinal de chuva forte, sistemas de alerta que existem no papel e não existem na montanha, ministérios com orçamento gordo e caminhonetes zero quilômetro estacionadas em Katmandu enquanto o resgate real é feito por vizinhos com pás e cordas. O contribuinte nepalês paga por um Estado protetor e recebe um Estado espectador, e ninguém pergunta para onde foi o dinheiro que deveria ter comprado helicóptero, radar, sonar, cão farejador, equipe treinada.

Há sempre um consórcio internacional pronto para aparecer com empréstimo, pacote de ajuda, missão técnica e conferência climática. O dinheiro entra em dólar, sai em rupia, e no meio do caminho engorda ONG, consultoria, agência multilateral, palestrante de gravata que voa em executiva para dizer que a culpa é do CO2 emitido pelo fazendeiro do interior. A tragédia virou indústria, e a indústria precisa de tragédias recorrentes para justificar o próximo orçamento. É por isso que a prevenção nunca sai do PowerPoint: prevenir dá menos comissão do que remediar.

A conversa sobre mudança climática, que domina cada coletiva oficial, serve exatamente para desviar o olhar do que interessa. Quando a chuva cai sobre uma cidade suíça, ninguém morre aos milhares. Quando cai sobre um vale do Himalaia governado por décadas de burocracia predatória, morre gente que sequer teve chance de ver o rio subir. A diferença não está no volume de água, está na qualidade das instituições, na seriedade da propriedade privada, na existência de um mercado que precifica risco em vez de um governo que socializa desgraça. Onde há liberdade econômica, há engenharia, seguro, dado, previsão. Onde há coronelismo travestido de república popular, há vela acesa e caixão de papelão.

E o mais cruel: a mesma classe política que falhou em avisar as famílias antes da tromba d'água agora usa os desaparecidos como argumento para pedir mais poder, mais imposto verde, mais controle sobre onde o camponês pode plantar, sobre quantos filhos ele pode ter, sobre que tipo de fogão pode acender. A vítima da incompetência estatal é convocada póstuma para justificar a expansão do mesmo aparato que a matou. Não há redenção maior para o mau administrador do que uma tragédia que ele mesmo ajudou a agravar; ela lava currículo, renova mandato e libera verba.

Milhares seguem sob a lama do Nepal, e a lama não é só de chuva. É a lama seca de décadas de planejamento central, de reforma agrária ideológica, de burocracia que trata cidadão como súdito e súdito como estatística. Quando o Estado promete tudo, ele acaba não entregando o mínimo, e o mínimo, no caso, era um telefonema a tempo. Um povo que aprende a esperar pelo governo aprende, cedo ou tarde, a esperar sentado dentro do próprio túmulo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.