O sorteio saiu, os números foram anunciados, e mais uma vez o país inteiro parou para conferir se ganhou a chance matemática de um raio cair duas vezes na mesma cabeça. A +Milionária tem probabilidade de acerto máximo na casa de um em cerca de 240 milhões, o que significa que você tem mais chance de ser atingido por um meteorito no caminho da lotérica do que de sair de lá bilionário. Ainda assim, filas se formam, seis reais trocam de mão, e a Caixa fecha o domingo com o caixa cheio, o Tesouro fecha o mês com a mordida garantida, e o apostador fecha a semana com a mesma vida de sempre, agora seis reais mais pobre.
Chamam de sorte, de sonho, de entretenimento. O nome técnico é outro: imposto regressivo voluntário. Regressivo porque pesa proporcionalmente muito mais no bolso de quem ganha salário mínimo do que no do executivo que aposta por diversão. Voluntário porque, ao contrário do imposto de renda, o cidadão entrega o dinheiro alegre, cantando, achando que está comprando um bilhete para a liberdade financeira quando, na verdade, está subsidiando programas que jamais escolheria financiar se lhe perguntassem diretamente. Da arrecadação da loteria, uma fatia gorda vai para o governo federal antes mesmo de qualquer prêmio ser pago. Você não aposta contra a casa; você aposta contra a União, e a União nunca perde.
O detalhe que ninguém comenta é a genialidade do arranjo. O Estado monopoliza legalmente o jogo de azar, criminaliza o concorrente privado sob o pretexto moral de proteger o cidadão contra o vício, e em seguida abre mil bocas de caixa por todo canto do país para explorar exatamente o vício que dizia combater. É o mesmo governo que proíbe bingo de bairro, persegue rifa de igreja, mas mantém propaganda milionária estimulando o sujeito a jogar toda semana em nome do sonho. Se um particular fizesse metade disso, estaria preso por exploração predatória. Como é o Estado, chama-se política pública de fomento à cultura e ao esporte.
E o dinheiro segue rota conhecida. Passa pela Caixa, some em rubricas obscuras, financia editais, secretarias, fundações, ONGs credenciadas, comitês, conselhos, e no fim reaparece como salário de burocrata em Brasília ou como cartaz de campanha travestido de projeto social. O ganhador esporádico serve de vitrine, o rosto sorridente na propaganda que renova a fé coletiva. Milhões de perdedores silenciosos servem de combustível. É uma pirâmide legal, com selo de qualidade governamental e comercial em horário nobre.
Tem gente que dirá que é entretenimento barato, que ninguém é obrigado, que o sujeito escolhe apostar. Correto em parte. Mas escolher livremente numa fila de lotérica quando nunca lhe ensinaram probabilidade na escola pública que o mesmo Estado administra, quando o mesmo governo veta a educação financeira séria no currículo e patrocina campanhas apelando ao sonho, é uma liberdade de contornos suspeitos. É a liberdade de escolher entre alternativas que outro desenhou para você. O sonho de ficar rico numa tarde de domingo é o anestésico perfeito para quem nunca vai ficar rico porque paga metade do que produz em tributo antes mesmo de tocar no salário.
No fim, o que a +Milionária vende não é bilhete, é resignação disfarçada de esperança. É o consolo de que a mobilidade social existe, ainda que na forma de um sorteio cósmico. Enquanto o cidadão sonha com o bilhete premiado, deixa de exigir o óbvio: menos imposto, menos regulação, menos Estado no bolso e no destino. A loteria é a válvula de escape que impede a panela de pressão de explodir. Por seis reais, o brasileiro compra a ilusão semanal de que um dia sai da fila. E o governo, esse sim, ganha todo domingo.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.