A conta chegou antes mesmo do primeiro tiro de festim. O Exercício Conjunto Combinado Felino 2026, sediado em Foz do Iguaçu, mobilizou setecentos militares brasileiros e trinta e oito estrangeiros vindos das colônias linguísticas que ainda flertam com a saudade do império. A proporção já diz tudo: dezoito para um. O anfitrião paga o combustível, o rancho, a hospedagem, o desgaste do material, a logística, e ainda tem que sorrir para as fotos oficiais como se estivesse recebendo dignitários de uma potência. É a hospitalidade compulsória do pagador de tributo, aquele que financia a festa sem receber convite nem cardápio.
Convém perguntar, com a frieza de quem lê balancete, qual é exatamente a ameaça bélica que justifica setecentos homens armados ensaiando desembarques na fronteira do Paraná com militares de países que somados não teriam capacidade de invadir sequer uma padaria em Curitiba. A resposta oficial virá embrulhada em palavras nobres como interoperabilidade, cooperação, laços históricos e projeção estratégica. Traduzindo do idioma oficial para o português dos vivos: é orçamento a queimar, general a promover, diária a receber e relatório a engordar para justificar o próximo exercício, ainda maior, ainda mais caro, ainda mais inútil.
A lógica é implacável e velha como as pirâmides. Toda burocracia militar em tempo de paz precisa fabricar sua própria relevância, sob pena de o pagador acordar e perguntar por que sustenta um aparato desenhado para guerras que não existem. Inventa-se então o inimigo abstrato, o cenário hipotético, o parceiro estratégico, a ameaça difusa. Cria-se a coreografia da utilidade. O tanque roda, o helicóptero decola, o soldado transpira, e no fim do mês o contracheque sai gordo, a promoção sai garantida, o fornecedor de botas sai sorrindo. Ninguém perde, exceto quem não estava na sala quando o cheque foi assinado.
Repare no detalhe pitoresco da comunidade lusófona convocada para a brincadeira. Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Timor. Países que juntos não constituem ameaça a rigorosamente nada e cuja presença é ornamental, quase folclórica. Serve para dar ao evento um ar de aliança internacional, de bloco geopolítico, de coisa séria. É a mesma técnica dos condomínios que contratam segurança fardada só para intimidar visitantes: a farda é o produto, não a proteção. Só que aqui o condomínio é o Brasil inteiro e a taxa não é opcional.
Enquanto isso, o cidadão que amanhã vai reclamar do preço do arroz, do reajuste da tarifa, do imposto que sobe e do serviço que desce, não faz a ligação evidente entre uma coisa e outra. O dinheiro que financia a manobra em Foz não caiu do céu. Foi arrancado, real por real, do bolso de quem trabalha, com a educada violência da retenção na fonte e do tributo embutido no combustível, na energia, no pão, no botijão. O Estado é essa criatura peculiar que primeiro tira e depois se apresenta em desfile para mostrar como gasta bem o que tirou. E o povo, treinado por décadas de propaganda cívica, aplaude.
A conclusão não precisa de doutorado. Toda vez que uma corporação armada organiza um espetáculo em nome da defesa nacional, o roteiro é o mesmo: quem paga não decide, quem decide não paga, e quem aparece na foto ganha estrela nova na farda. O Exercício Felino é apenas o capítulo desta temporada. Ano que vem terá outro nome, outro bicho como mascote, outra cidade escolhida, e a mesma conta chegará muda, escondida no contracheque de quem nunca vestiu farda e nunca disparou uma arma, mas paga fielmente pelo direito de assistir os outros brincarem de guerra.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.