A Mizuho cortou o preço-alvo da eToro alegando queda na atividade de negociação, e a frase, traduzida do economês para o português, quer dizer o seguinte: os otários pararam de clicar. A plataforma que se vendia como o grande equalizador dos mercados, o app que ia colocar o pedreiro no mesmo tabuleiro do gestor de Manhattan, está descobrindo que volume de negociação de varejo não é fenômeno espontâneo de "educação financeira", é função direta de quanto dinheiro helicóptero o banco central despejou na conta dos usuários. Cortou o estímulo, cortou o tédio pandêmico, e o pedreiro voltou a trabalhar em vez de operar opções de Tesla no intervalo do almoço.
Vale prestar atenção no que não se vê nesse relatório. Analista de banco reduz preço-alvo com voz professoral, fala em "normalização de fluxos", em "ambiente macro adverso", e ninguém pergunta o que estava acontecendo antes para justificar os preços anteriores. Estava acontecendo uma expansão monetária das mais brutais da história moderna, dinheiro criado do nada foi parar na mão de gente que nunca tinha visto um gráfico, e essa gente clicava freneticamente porque o custo de oportunidade do capital era zero. Quando o juro sobe, o clique morre. Não é mistério, é aritmética. Só que confessar isso obrigaria a admitir que o boom das corretoras digitais foi filho direto de uma política monetária irresponsável, e nenhum banco de investimento vai escrever essa frase.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. O modelo de negócio dessas plataformas é o que se chama, com um eufemismo caridoso, de "payment for order flow", ou seja, elas vendem as ordens dos seus clientes para grandes formadores de mercado, que ganham na diferença microssegundo a microssegundo. O usuário acha que está sendo servido gratuitamente pela benevolência de uma fintech disruptiva, quando na verdade ele é o produto, o fluxo dele é a mercadoria, e a corretora só existe enquanto conseguir despejar volume suficiente na goela dos parceiros institucionais. Volume cai, receita cai, alvo cai. Não tem revolução financeira nenhuma, tem uma cadeia de intermediação com marketing melhor.
E há um ponto moral que ninguém quer tocar. Uma plataforma que estimula um sujeito com salário de dois mil dólares a alavancar posição em criptoativo de meme não está democratizando finanças, está fazendo o oposto do que qualquer investidor sério faria com o próprio dinheiro. A gamificação do risco, com confetes na tela toda vez que o cliente compra na alta, é engenharia comportamental desenhada para transferir patrimônio de quem não entende para quem entende. Isso já teve nome em outras épocas, chamava-se bucket shop, e era proibido justamente porque destruía famílias. Agora tem nome de startup unicórnio e ministro de tecnologia posando ao lado do CEO.
O corte da Mizuho é honesto no tamanho errado. Deveria ter vindo há três anos, quando qualquer um com um pouco de memória histórica já sabia que aquilo era ciclo, não paradigma. Todo boom financiado com crédito artificial gera exatamente esse padrão, entusiasmo eufórico na subida, negação no topo, ressaca prolongada na descida, e depois vem o coro dos surpresos alegando cisne negro, evento sem precedentes, tempestade perfeita. Não é nada disso. É o mesmo filme, com fantasia nova, e o roteiro está escrito desde que existe banco central com poder de imprimir moeda.
Fica a lição de sempre para quem quiser ouvir. Não existe democratização de acesso ao mercado enquanto existir monopólio estatal sobre a moeda, porque é a moeda adulterada que gera as bolhas que geram os "acessos" ilusórios. O pedreiro não perdeu porque foi burro, perdeu porque foi convidado tarde para uma festa que só existia enquanto a impressora rodava. Quando a música parar de vez, e ela vai parar, o preço-alvo da eToro vai ser a menor das notícias.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.