O iene japonês afunda mais uma vez, arrasta consigo won, ringgit, rupia e o que mais estiver na vizinhança, e o dólar volta a namorar o topo da semana. A imprensa financeira trata isso como se fosse fenômeno meteorológico, algo que "aconteceu" com o mercado, como chuva de verão. Não aconteceu nada. Alguém decidiu. Alguém, sentado numa cadeira confortável em Tóquio, decidiu manter juros artificialmente baixos enquanto o resto do mundo aperta, e o resultado dessa decisão está agora no bolso vazio do aposentado japonês que vê o preço do arroz importado subir e no exportador coreano que perde competitividade porque o vizinho está desvalorizando a própria moeda como quem joga fora lixo velho.
A história é sempre a mesma e insiste em não ser aprendida. Um banco central decide que sabe mais que milhões de agentes econômicos operando com informação real. Fixa o preço do dinheiro num nível que lhe parece "adequado", palavra vaga que esconde décadas de arrogância intelectual. O mercado, que é a soma de todas as escolhas individuais e não uma entidade abstrata que "reage", faz o que qualquer criança faria: foge da moeda que está sendo diluída. Chama isso de especulação quem não quer chamar pelo nome verdadeiro, que é fuga racional de um ativo que perde valor por decreto.
Olha, quando o iene desaba, ninguém pergunta quem lucra. Pergunta errada, aliás, revela ingenuidade. A pergunta certa é quem paga. Paga o japonês médio, que vê sua poupança em ienes valer menos a cada semana. Pagam os países vizinhos, que precisam desvalorizar em cadeia para não perder mercado, num efeito dominó que a academia batiza de guerra cambial e o cidadão comum sente como aumento no supermercado. Ganha, é claro, o governo japonês, que rola dívida colossal a juro negativo real, financiado pela erosão silenciosa do poder de compra de quem trabalhou a vida inteira acreditando na moeda nacional.
O dólar próximo da máxima semanal não é sinal de força americana. É sinal de fraqueza alheia. Numa corrida onde todos os corredores estão mancando, o menos manco vence. Isso não é economia próspera, é competição de decadência gerenciada. A moeda de reserva do mundo sobe porque as outras afundam mais rápido, e a essa dança macabra de banqueiros centrais dá-se o nome pomposo de política monetária internacional. Traduzindo do economês para o português, significa que um pequeno grupo de burocratas não eleitos determina o valor do trabalho de bilhões de pessoas.
Enquanto isso, o brasileiro que acompanha isso pela manchete deveria olhar com atenção redobrada. O mesmo mecanismo opera aqui, apenas com sotaque tropical e mais desavergonhado. Quando o Banco Central de qualquer país trata a impressora como solução, o resultado nunca é riqueza, é redistribuição silenciosa de quem produz para quem administra o produzido. Chamam de estímulo, chamam de flexibilização, chamam de coordenação internacional. O nome honesto sempre foi confisco por outros meios, e nenhum ministro da fazenda em nenhum país civilizado teve a coragem de usar essa palavra num pronunciamento.
A lição do dia asiático é a mesma lição que se recusa a ser aprendida desde que existe moeda fiduciária: quem controla a impressora controla o povo, e nenhum povo permanece livre quando entrega o valor de seu trabalho à decisão discricionária de um comitê. As moedas asiáticas não estão enfraquecendo, estão sendo enfraquecidas, e a diferença entre a voz passiva e a voz ativa é a diferença entre acidente e crime.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.