A Moleculin Biotech, empresa que promete curar câncer com moléculas experimentais, acaba de receber da NASDAQ o aviso formal de que seu preço fechou abaixo de um dólar por tempo demais e que, se não recuperar a régua nos próximos meses, será posta para fora da bolsa. Traduzindo o eufemismo corporativo: a ação virou pó, o mercado precificou a promessa como conto do vigário, e agora a própria bolsa quer distância antes que o cheiro grude. É o capitalismo funcionando exatamente como deveria funcionar, com a brutalidade honesta de quem não tem tempo para fingimento.

Repare na beleza do arranjo. Ninguém precisou de comissão parlamentar, ninguém convocou o presidente da empresa para depor, ninguém abriu inquérito. O mecanismo é automático, frio, impessoal. Fechou abaixo de um dólar por trinta pregões consecutivos? Recebe o aviso. Não recuperou em cento e oitenta dias? Sai da vitrine e vai para o balcão, aquele mercado paralelo onde ficam as ações que ninguém quer mais tocar sem luva. Compare isso com o tratamento reservado às estatais brasileiras que queimam bilhões ano após ano e continuam recebendo aporte com dinheiro do contribuinte, protegidas por lobby, por sindicato, por deputado bem pago para defender o indefensável.

A regra do dólar mínimo existe por um motivo prático que o intervencionista de plantão jamais entenderá. Ações negociadas em centavos são o playground preferido de esquemas de pump and dump, de manipulação grosseira, de fraude cara pintada. Quando o papel custa quinze centavos, basta um vídeo no YouTube com promessa mirabolante para multiplicar o preço por dez em uma tarde, encher o bolso do vigarista e deixar o incauto segurando o mico. A NASDAQ não quer esse tipo de teatro na sua marca, e faz muito bem. É higiene de mercado, não é crueldade.

Siga o rastro do dinheiro que sumiu. A Moleculin abriu capital em 2016 valendo dezenas de dólares por ação, prometendo revolucionar o tratamento de leucemia e tumores cerebrais. Levantou capital de investidores animados com o discurso técnico, queimou esse capital em ensaios clínicos que não entregaram o resultado prometido, diluiu o acionista original com emissões sucessivas para pagar a conta, e chegou ao ponto onde está agora, valendo menos que um café expresso em Manhattan. Cada centavo evaporado saiu do bolso de alguém que acreditou. E ninguém foi socorrido, porque não existe banco central de biotech falida, e ainda bem.

O contraste com a lógica estatal é gritante. Se a Moleculin fosse uma empresa pública brasileira, já teria recebido três aportes emergenciais, uma renegociação de dívida com o BNDES em condições que nenhum banco privado ofereceria, e um discurso comovido no plenário sobre a importância estratégica de manter empregos no setor de biotecnologia nacional. Custaria bilhões, não curaria ninguém, e o quadro de diretores continuaria intacto recebendo salário de executivo internacional para gerir prejuízo com dinheiro alheio. O mercado, esse ente desumano que os progressistas tanto detestam, faz o serviço sujo que a política nunca fará: manda embora quem não serve.

Existe uma lição aqui que ultrapassa em muito o caso específico de uma biotech obscura em Houston. Sistemas que permitem o fracasso são sistemas que produzem sucesso, porque a possibilidade real de quebrar disciplina o comportamento de todo mundo, do executivo ao investidor. Sistemas que socializam prejuízo e privatizam lucro produzem exatamente o que se vê no Brasil há décadas, uma paisagem econômica povoada de zumbis corporativos mantidos vivos por transfusão contínua do sangue de quem trabalha. A NASDAQ está apenas cumprindo o papel de coveiro que o capitalismo lhe reservou, e é por isso mesmo que a bolsa americana continua sendo o motor da inovação global enquanto a nossa vira feira de commodities e estatal envergonhada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.