O número saiu com a naturalidade de quem anuncia previsão do tempo, 37% do mercado automotivo global nas mãos das montadoras chinesas até 2030. Trinta e sete por cento. Para efeito de comparação, é aproximadamente a fatia que Estados Unidos, Alemanha e Japão somados detinham em seu auge, quando ainda se acreditava que fabricar carro era coisa de país sério. Agora vira estatística de projeção, e ninguém em Bruxelas, Detroit ou São Bernardo do Campo parece surpreso, porque a rendição já vinha sendo assinada em cerimônias trimestrais chamadas de metas climáticas.

Convém olhar para o que não se vê no gráfico. Enquanto Volkswagen, Ford, Stellantis e a indústria europeia inteira eram obrigadas a queimar bilhões reengenharia atrás de reengenharia para atender diretiva de emissão que muda a cada dezoito meses, a BYD e a Chery recebiam terreno de graça, energia subsidiada, crédito estatal a juro negativo em termos reais e um mercado interno de 1,4 bilhão de consumidores forçados a comprar nacional. O que o Ocidente chamou de transição energética era, do outro lado do Pacífico, política industrial nua e crua, do tipo que qualquer manual de economia do século dezenove reconheceria imediatamente como mercantilismo com bandeira vermelha.

Siga o dinheiro e a história fica clara. Cada real, cada euro, cada dólar que a indústria ocidental gastou cumprindo regulação ambiental fabricada em conferência de ONG virou, na prática, subsídio invertido para o concorrente que não tinha essa obrigação. Fecharam refinaria alemã em nome do planeta, e o carvão que move a fábrica de bateria em Xinjiang continua queimando alegremente, só que agora com o selo verde da cadeia produtiva certificada. É a janela quebrada em escala continental, o vidraceiro celebra, o padeiro fecha as portas, e o economista de Davos ainda tem coragem de chamar isso de oportunidade histórica.

O Brasil merece capítulo próprio nessa comédia. Passamos vinte anos protegendo a indústria automotiva local com tarifa de importação de 35%, IPI diferenciado, financiamento do BNDES, reserva de mercado disfarçada de conteúdo nacional, e o resultado dessa proteção toda foi produzir o carro mais caro e mais atrasado do hemisfério. Agora que o chinês desembarca em Camaçari, ocupando o galpão que a Ford abandonou, o mesmo governo que sufocou a Fiat com regulação corre para tapete vermelho, isenção fiscal e discurso sobre parceria estratégica. O empresário que jogou dentro das regras foi o único otário, o de fora chega, contorna as regras com carimbo oficial, e leva o mercado.

O ponto que os apresentadores de telejornal econômico se recusam a admitir é simples. Nenhum burocrata em Berlim, em Washington ou em Brasília tinha capacidade cognitiva para adivinhar, em 2015, qual seria a bateria dominante em 2030, qual química de lítio venceria, qual arquitetura de software embarcado se tornaria padrão. Ninguém tinha, porque ninguém pode ter. Esse conhecimento está disperso entre milhões de engenheiros, consumidores e fornecedores, e o único mecanismo capaz de agregá-lo se chama preço livre. Ao substituir preço por decreto, ao trocar concorrência por planilha de meta, o Ocidente entregou de bandeja o setor que definia sua supremacia industrial há um século. E entregou achando que estava sendo virtuoso.

Trinta e sete por cento não é previsão, é fatura. Cobrada em juan, paga em desemprego industrial europeu, saldada com a humilhação de comprar do regime que se dizia estar combatendo. Quem regula o próprio pescoço não deveria se surpreender quando o vizinho aparece com a foice afiada e o sorriso largo. Perderam o mercado no dia em que decidiram que mercado era assunto de comitê.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.