Faleceu nesta semana, aos 87 anos, Antônio Carlos Nunes de Lima, o Coronel Nunes, ex-presidente interino da Confederação Brasileira de Futebol, após meses internado por complicações da retirada de um tumor. A biografia oficial dirá que foi dirigente longevo, que presidiu a Federação Amazonense por mais de três décadas, que ocupou interinamente o comando máximo do futebol nacional em 2015, quando Marco Polo Del Nero fugiu do cerco da Justiça americana. A biografia real, aquela que não sai em nota de pesar assinada por presidente da República, é bem mais interessante, e diz muito sobre o país que aplaude o caixão sem perguntar de onde veio o verniz do mogno.
Trinta e quatro anos à frente de uma federação estadual. Leia de novo, com calma. Trinta e quatro anos. Nenhum prefeito, nenhum governador, nenhum senador brasileiro consegue tal proeza sem que a imprensa berre ditadura, coronelismo, patrimonialismo tropical. Mas quando o feudo se chama federação de futebol, o silêncio é catedralício. A explicação está onde sempre esteve, no lugar mais óbvio e por isso mesmo o mais ignorado: siga o dinheiro. A CBF e suas federações estaduais são entidades formalmente privadas que operam com dinheiro público disfarçado, isenções tributárias generosíssimas, repasses da Loteria, patrocínios de estatais, verbas indiretas via clubes que sobrevivem de refinanciamento eterno de dívidas tributárias. Privado no lucro, público no prejuízo, eleitoral no estatuto, monárquico na prática.
O interinato em 2015 foi a fotografia perfeita do arranjo. José Maria Marin havia sido preso em Zurique, algemado pelo FBI num hotel cinco estrelas, dentro daquela operação que expôs à luz americana o que aqui todo mundo fingia não enxergar. Del Nero, seu sucessor natural, tratou de nunca mais pisar em solo estrangeiro que tivesse tratado de extradição com Washington. E, no vácuo desse teatro de fugitivos de terno, entrou o Coronel, sereno, para segurar as pontas. Não foi eleito para nada, foi ungido pela conveniência. Assim funciona a sucessão nas dinastias que se recusam a admitir que são dinastias: o rei morre, o rei foge, o rei se esconde, e o primo mais discreto assume o trono até que a poeira baixe.
O detalhe delicioso, que ninguém vai lembrar nos obituários lacrimosos, é que essa estrutura toda se sustenta na ficção jurídica de que futebol é assunto de sociedade civil, de que federação é associação privada, de que o Estado não deve se meter. Belíssimo argumento liberal, não fosse detalhe pequenino: quando o dinheiro é público, quando a isenção é concedida por lei, quando o estádio é construído com verba do contribuinte a fundo perdido, a alegada natureza privada vira apenas escudo contra fiscalização. Querem a liberdade do mercado sem correr o risco do mercado. Querem o silêncio do direito privado com a torneira aberta do direito público. É o melhor dos dois mundos para quem está por dentro, e o pior dos dois mundos para quem paga a conta, que é sempre o mesmo sujeito, o pagador de imposto que nunca foi consultado sobre nada.
Morre o Coronel, e amanhã haverá minuto de silêncio nos estádios, discurso emocionado do presidente da entidade, coroa de flores da FIFA, homenagem no Fantástico. Tudo muito digno, tudo muito solene, tudo muito brasileiro. E a máquina segue rodando exatamente como rodava ontem, porque a máquina nunca dependeu de nenhum homem em particular, e sim do arranjo que permite que homens quaisquer se tornem, por décadas, senhores absolutos de patrimônios que juridicamente não lhes pertencem. Trocam-se as fotos na parede, mantém-se o organograma. Vai um, vem outro. O contribuinte continua pagando, o torcedor continua aplaudindo, o jornalista esportivo continua chamando de doutor sujeito que jamais defendeu tese alguma. E a próxima geração de coronéis já está treinando, na federação de algum estado que você nem sabe soletrar, o sorriso discreto de quem sabe que vai durar mais que três presidentes da República.
Descanse em paz o homem. A instituição que ele ajudou a moldar, essa sim, merecia enterro há muito tempo, e insiste em não morrer, porque quem se alimenta dela é numeroso demais, e quem paga por ela é desorganizado demais. É a fórmula clássica de toda estrutura parasitária bem sucedida: benefício concentrado em poucos, custo diluído em milhões. Ninguém acorda de manhã disposto a fazer passeata contra a CBF, mas há centenas de cartolas dispostos a passar a vida defendendo-a. Enquanto essa aritmética não se inverter, o próximo Coronel já está a caminho, apenas aguardando a vez.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.