A cena tem algo de fábula moderna. Um cidadão, apavorado com a selva motorizada que o próprio Estado prometeu civilizar durante décadas de campanhas, leis e propagandas comovidas, decide se arrastar pela faixa da esquerda como quem atravessa um campo minado de olhos vendados. Vem a blitz, vem o agente, vem a lição pedagógica: existe, sim, infração por velocidade abaixo da metade do limite máximo, classificada como média, quatro pontos na carteira, multa no bolso. Traduzindo em bom português, o sujeito paga por ter medo do trânsito que a fiscalização jamais conseguiu tornar seguro.
Repare na perfeição do arranjo. O poder público monopoliza a construção das vias, monopoliza a sinalização, monopoliza o licenciamento de veículos, monopoliza o exame do condutor, monopoliza as regras, monopoliza a punição. Cada etapa da cadeia gera receita, gera cargo, gera contrato, gera reeleição. E ao final desse longo cortejo de carimbos, quando o resultado prático é um trânsito em que motorista experiente treme e motorista inexperiente reza, quem apanha é o motorista. Não o engenheiro que projetou a curva mal sinalizada, não o vereador que autorizou o loteamento sem via de escape, não o secretário que faz obra em hora de pico. O motorista. Sempre o motorista.
A engenharia da coisa é digna de imperador romano cobrando pedágio na ponte que ele próprio deixou cair. Se você anda rápido demais, radar. Se anda devagar demais, blitz. Se muda de faixa, seta fora do prazo regulamentar. Se não muda, obstrução. Se buzina, poluição sonora. Se não buzina e bate, imprudência. O código é uma teia em que qualquer movimento do inseto aciona a aranha, e a aranha tem CNPJ, meta de arrecadação e sindicato. Não existe conduta neutra no interior desse labirinto; existe apenas conduta ainda não fiscalizada.
E note a hipocrisia moral do argumento oficial. Dizem que a lentidão excessiva é perigosa porque quebra o fluxo, provoca ultrapassagens arriscadas, aumenta acidentes. Tudo verdade. Só que quem produziu essa lógica de fluxo foi justamente o desenho estatal das vias, dos limites, das faixas. Se o cidadão médio anda apavorado, é porque décadas de política pública transformaram o deslocamento cotidiano numa loteria de vida e morte, com asfalto remendado, motoristas sem preparo real e uma frota que cresce enquanto a malha viária apodrece. O medo do motorista não é neurose, é diagnóstico. Multar o diagnóstico é matar o mensageiro para não ter que encarar a doença.
Segue-se o dinheiro e chega-se sempre ao mesmo balcão. A multa não vai para uma conta poupança da viúva atropelada; vai para o caixa do órgão de trânsito, alimenta salários, custeia mais viaturas, financia mais campanhas educativas sobre como você, cidadão perigoso, precisa ser reeducado por eles, cidadãos iluminados. É o ciclo perfeito: o Estado cria o problema, cobra pela existência do problema, promete resolver o problema com o dinheiro que arrecadou por causa do problema, e ao final do exercício apresenta como conquista o fato de continuar existindo. Uma indústria em que o produto é a própria disfunção.
Resta a piada final, aquela que o motorista assustado ainda vai demorar para entender enquanto assina o auto de infração. Ele acreditou, em algum recanto ingênuo da alma, que a autoridade estava ali para protegê-lo. Descobriu, no meio da faixa da esquerda, que a autoridade estava ali para faturar em cima dele. É a mesma descoberta que o contribuinte faz na declaração anual, que o empresário faz na fiscalização, que o pai de família faz no boleto do imposto embutido em cada litro de gasolina. Muda o cenário, muda o uniforme, muda a nomenclatura da taxa. O papel do súdito, esse, permanece rigorosamente o mesmo desde que inventaram a coroa.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.