Isabelle Caracristi cursava Direito, estagiava no escritório do namorado, e agora não está mais em lugar nenhum. O namorado, trinta e três anos, também não é encontrado. A mãe do rapaz teve celular e tablet apreendidos na noite de domingo, na praia do Cumbuco, em Caucaia, para perícia. A nota oficial faz questão de sublinhar, com aquela delicadeza jurídica que serve para tudo e para nada, que ninguém ali é investigado nem suspeito. Curioso: quando o cidadão comum tem um aparelho apreendido, vira manchete de reportagem policial; quando é numa investigação de sumiço, vira, dizem, mera diligência técnica. As palavras mudam conforme o CEP do envolvido, e o vocabulário oficial existe justamente para isso, para vestir de neutralidade aquilo que qualquer pessoa com dois olhos entende de outro jeito.

Vale reconstruir o desenho antes que a fumaça das notas oficiais tome conta. Uma estudante de Direito, jovem, entra como estagiária no escritório do próprio namorado, quase dez anos mais velho, advogado estabelecido. Aqui já se instala uma assimetria elementar, dessas que qualquer manual de lógica reconhece à primeira leitura: de um lado, quem detém o poder de assinar carteira, distribuir tarefa, avaliar desempenho e definir horário; do outro, quem depende disso para carimbar as horas do curso e sonhar com a OAB. Chamar essa configuração de romance entre iguais é um exercício de fé que só os cínicos e os ingênuos praticam, cada um pelo seu motivo. O afeto pode até existir, ninguém está negando, mas o contrato de trabalho não some porque o casal jantou junto.

E aí entra a segunda camada, a mais reveladora. Quem paga a conta desse tipo de arranjo, quando algo dá errado? Quase sempre a parte mais jovem, mais pobre, com menos advogados na agenda de contatos e sem um sobrenome que abra porta em delegacia. A parte mais estabelecida costuma ter recursos para reagir com calma processual, contratar a defesa que sabe onde apertar, articular narrativa antes que a narrativa se articule sozinha. Não é acaso que a polícia esteja periciando o aparelho da mãe, e não outra coisa mais direta; a apreensão de eletrônicos de terceiros, com essa etiqueta de que ninguém é suspeito, tem gosto de diligência que preserva mais do que apura. É a versão civil daquela velha lição: quem manda no relógio manda no tempo, e quem manda no tempo manda no que a memória vai lembrar depois.

Não é preciso pertencer a nenhuma escola de pensamento sofisticada para enxergar o padrão. Basta lembrar como a máquina pública funciona quando o desaparecido é uma jovem do interior e o citado é um profissional do Direito, com trânsito nos corredores. As delegacias trabalham no ritmo do incômodo que a imprensa gera, os prazos se alargam ou se apertam conforme a pressão, e o vocabulário oficial vai sendo cirurgicamente escolhido para não comprometer futuras teses. É por isso que a família da estudante, os amigos, a opinião pública que ainda se indigna, precisam manter o holofote aceso. Sem holofote, o inquérito respira aliviado; com holofote, ele sua e trabalha. A diferença entre uma investigação séria e uma investigação de fachada, no Brasil, costuma ser exatamente a quantidade de olhos apontados para ela.

Fica também a lição, para quem quiser aprender antes de ser lição, sobre a confusão perigosíssima entre vínculo afetivo e vínculo hierárquico. Escritórios, empresas, gabinetes, tudo isso deveria manter uma linha nítida entre quem chefia e quem é chefiado, não por moralismo de cartilha, mas por proteção elementar dos mais fracos na relação. Quando essa linha some, some junto o único mecanismo que a parte vulnerável tem para reclamar sem medo, para pedir demissão sem chantagem, para dizer não sem calcular o custo. É uma engenharia de dependência que se disfarça de intimidade, e o preço dela quase sempre é pago pela pessoa que tinha menos a perder em capital, e mais a perder em vida.

Enquanto isso, no Cumbuco, um celular e um tablet viajam para o setor técnico, o namorado segue sem ser localizado, e uma família chora sem saber ainda o tamanho do que chora. A pergunta que interessa não é a que os comunicados oficiais respondem, mas a que eles fazem questão de não fazer: quem tinha algo a ganhar com o silêncio dela, e quem tem algo a ganhar com a demora deles em aparecer? Responder essa pergunta, com honestidade, resolveria metade dos crimes brasileiros antes do café da manhã. É justamente por isso que ela raramente é feita em voz alta.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.