A notícia chega embrulhada em papel de presente corporativo: a NB Private Equity Partners, listada em Londres, informa que David MacLellan foi indicado presidente do conselho, sucessão programada, transição suave, tudo dentro das melhores práticas de governança. O texto do release parece ter sido escrito por um algoritmo treinado em atas de assembleia. E é justamente aí que mora o interesse. Quando uma troca de presidente numa gestora de private equity é apresentada como um evento tão asséptico quanto trocar o filtro do ar-condicionado, é porque alguém quer muito que ninguém preste atenção.

Private equity, no fim das contas, é o nome elegante que se dá ao seguinte arranjo: um punhado de gestores capta dinheiro de investidores, cobra taxa de administração polpuda para ter esse dinheiro parado, cobra taxa de performance quando dá certo e some quando dá errado. NB Private Equity Partners é um fundo fechado que investe em outros fundos fechados, uma matrioska de comissões, cada camada arrancando um pedaço do retorno antes que ele chegue ao cotista final. Trocar o presidente desse tipo de veículo não é escolher quem vai empunhar o martelinho nas assembleias. É definir quem vai carimbar as próximas alocações, quem vai negociar as próximas taxas, quem vai defender publicamente por que o desconto sobre o valor patrimonial continua absurdo ano após ano.

MacLellan não caiu de paraquedas. Vem de uma trajetória sólida em gestão de patrimônio, com passagens por casas conhecidas do circuito britânico e escocês, o tipo de currículo que abre porta em clube de golfe e sala de reunião do mesmo jeito. Traduzindo: é gente da casa. E gente da casa não é indicada para revirar armário. É indicada para manter o armário fechado, arrumado e discreto, principalmente num momento em que o setor de private equity global vive uma ressaca considerável, com saídas travadas, avaliações questionadas e cotistas cada vez mais impacientes com a diferença entre o que o gestor promete e o que efetivamente entrega.

Vale olhar para o que não está no comunicado. Não se fala do desconto persistente entre o preço da cota em bolsa e o valor patrimonial declarado, um desconto que existe justamente porque o mercado desconfia dos números do próprio fundo. Não se fala da dificuldade de liquidar posições num ambiente de juros que finalmente parou de subsidiar aquisições alavancadas. Não se fala de quanto o novo presidente vai receber, quanto o antigo levou de saída, quanto os gestores continuarão embolsando enquanto o cotista médio olha o gráfico e se pergunta onde foi parar o retorno prometido nos prospectos. A troca de comando é o que se vê. O que não se vê é a estrutura de incentivos que continua exatamente igual, com o mesmo bolso pagando e os mesmos bolsos recebendo.

Há uma velha regra do jogo capitalista genuíno, aquele em que quem arrisca ganha ou perde de verdade: alinhamento de interesses. Quando o gestor coloca patrimônio próprio significativo no fundo, quando as taxas são cobradas só sobre o que efetivamente rende, quando o resultado do administrador depende do resultado do administrado, aí sim se pode falar em capitalismo. Quando o gestor cobra dois por cento ao ano sobre o valor patrimonial simplesmente por existir e mais vinte por cento sobre lucros calculados com metodologia própria, o que se tem é uma versão sofisticada de aluguel de escritório caro. Trocar o síndico do prédio não muda o valor do aluguel.

A lição para o investidor comum, aquele que lê essas notícias nas plataformas e pensa se deve comprar cota do fundo, é bem menos glamourosa do que os folhetos sugerem. Antes de aplaudir a nomeação, pergunte quanto do próprio bolso o novo presidente vai colocar no veículo que passará a comandar. Pergunte se a estrutura de taxas será revista para refletir a realidade de retornos comprimidos. Pergunte se o desconto sobre o valor patrimonial será enfrentado com recompra de cotas ou apenas com mais comunicados bem escritos. Se a resposta para as três perguntas for silêncio educado, você acabou de entender o que a nomeação realmente significa: nada mudou, e nada vai mudar, e essa era exatamente a intenção desde o começo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.