A Neptune Seguro comunicou ao mercado a chegada de David Noble ao conselho de administração, e os terminais de notícias reproduziram a nota oficial com a mesma reverência de quem transcreve encíclica. Nenhuma pergunta incômoda, nenhum escrutínio sobre o histórico, nenhuma linha sobre quem indicou quem, quem deve favor a quem, quem sai ganhando com o realinhamento das cadeiras. Só o comunicado, engolido inteiro, digerido em manchete.
Quer dizer, o que se vê é um nome novo numa lista de conselheiros. O que não se vê é o circuito fechado de executivos que circulam entre meia dúzia de seguradoras, resseguradoras, bancos e consultorias, distribuindo assentos como quem distribui baralho na mesma partida de pôquer que já dura décadas. Chamam isso de governança. Um pescador de rio chamaria de rede de compadres, e o pescador estaria mais próximo da verdade técnica do que o analista de research que emitiu o relatório neutro sobre a nomeação.
Olha, ninguém aqui é ingênuo a ponto de exigir que empresa privada consulte plebiscito para escolher conselheiro. Propriedade privada é sagrada justamente porque o dono decide. O problema começa quando o setor segurador vive de subsídio implícito, de regulação que trava concorrência estrangeira, de exigências de capital calibradas para proteger o incumbente e afugentar o entrante. Aí a nomeação deixa de ser assunto interno e vira assunto público, porque o consumidor está pagando a conta de um mercado desenhado para não ter mercado.
Me diz uma coisa, quantas seguradoras novas nasceram no Brasil na última década sem ser braço de banco gigante ou spin-off de conglomerado já estabelecido? A resposta desconfortável explica por que a troca de cadeiras num conselho merece tanto silêncio respeitoso da imprensa especializada: o setor inteiro opera como cartório com fachada de mercado, e cartório não gosta de holofote. Prefere a penumbra reverente das notas oficiais reproduzidas sem edição.
Há ainda o aspecto cultural, que é o mais corrosivo. O jornalismo econômico brasileiro tratou o anúncio como se conselheiro fosse pastor evangélico chegando para salvar rebanho perdido. Currículo impressionante, larga experiência, sólida trajetória, as fórmulas prontas que se usa para vender qualquer executivo como se fosse gênio renascentista. É o ritual laico de canonização dos donos do dinheiro, e a plateia bate palma porque foi treinada para bater palma. Enquanto isso, o segurado paga apólice cara, franquia salgada e reajuste anual acima da inflação, tudo aprovado pelo mesmo circuito de conselheiros que se congratulam mutuamente em coquetéis com champanhe importado.
A notícia relevante nunca é o nome do conselheiro. A notícia relevante é o desenho do jogo que torna irrelevante qual conselheiro entra ou sai. Trocar peça num tabuleiro fechado não muda o resultado da partida, muda apenas quem embolsa a comissão. E o consumidor, esse personagem esquecido, continua sendo o único que joga sem escolher as regras.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.