A fotografia é o documento que os poderosos jamais aprendem a temer. Paulo Gonet, o homem que deveria ser o cão de guarda da República, aparece ombro a ombro com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, aquele mesmo instituto financeiro que virou personagem central do noticiário econômico por razões que ninguém no andar de cima gostaria de ver esmiuçadas. O deputado Nikolas Ferreira protocolou representação no Supremo pedindo o afastamento do procurador-geral, e o pedido chega às mãos de Edson Fachin com o timing de quem sabe que o incêndio já lambe o teto. A imagem circula, o silêncio institucional se acumula, e o cidadão comum, aquele que paga o cafezinho da Procuradoria e o jatinho do banqueiro sem nunca ter sido apresentado a nenhum dos dois, olha e pergunta o óbvio: o que faz o procurador-geral da República posando com o dono de um banco sob suspeita?

Quem paga e quem recebe, eis a bússola. O contribuinte paga o salário do procurador, paga o aparato do Ministério Público Federal, paga a estrutura que existe justamente para investigar figuras como o senhor Vorcaro. O banqueiro, por sua vez, recebe algo que dinheiro nenhum compra em lugar nenhum do mundo civilizado: a proximidade fotográfica com o guardião do interesse público. Não se trata de moralismo de sacristia. Trata-se de compreender que a instituição é uma promessa, e a promessa se sustenta na aparência de imparcialidade. Quebrada a aparência, quebrada a promessa; quebrada a promessa, resta a farsa. E farsa custa caro, porque quem financia o teatro somos nós, na conta de luz, no preço do arroz, no boleto que não perdoa.

A escada lógica é curta e não admite atalho. Se o procurador-geral tem o dever funcional de investigar crimes contra o sistema financeiro; se o Banco Master figura, direta ou indiretamente, no rol das instituições que demandam escrutínio; se Gonet se coloca voluntariamente na intimidade fotográfica com o proprietário da referida instituição; então, ou o procurador desconhece o próprio dever, o que o desqualifica, ou o conhece e o despreza, o que o desqualifica ainda mais. Não há terceira via. A tentativa de vender a foto como encontro casual em festa de arromba é o velho truque do ilusionista que pede ao público que olhe para a mão errada. O público desta vez está olhando para a mão certa.

Historicamente, sempre que um magistrado ou um alto funcionário da coroa foi flagrado à mesa dos mercadores ricos, a república em questão já havia adoecido gravemente. Roma sob Sula, a França pré-revolucionária, a Inglaterra dos tempos do South Sea Bubble, todas exibiram o mesmo sintoma antes do colapso: o esbatimento da fronteira entre quem julga e quem é julgado, entre quem regula e quem lucra com a regulação. O Brasil não inventa nada, apenas reprisa com sotaque tropical o mesmo enredo que já derrubou impérios menos folclóricos. A diferença é que aqui a plateia foi anestesiada por décadas de novela política em que o vilão de um capítulo vira mocinho do outro, e o telespectador não sabe mais para quem torcer.

O ponto que interessa ao bolso do contribuinte é este: cada centímetro de proximidade entre o poder de investigar e o poder econômico investigável é um imposto invisível cobrado da população. É a taxa da desconfiança, a alíquota da insegurança jurídica, o pedágio do capitalismo de compadrio que encarece o crédito, afasta o investimento honesto e premia o aventureiro bem relacionado. Não se trata de defender Nikolas, de atacar Gonet ou de canonizar Vorcaro. Trata se de reconhecer que a República, quando permite que seus fiscais posem para o álbum de família dos fiscalizados, está sinalizando ao mundo que aqui as regras valem para os desavisados. E os desavisados, invariavelmente, somos nós.

Fachin, agora, tem duas escolhas, e ambas custam. Ou aciona os mecanismos institucionais e enfrenta o desgaste de investigar o próprio procurador-geral, ou engaveta o pedido do deputado mineiro e assume, diante da história, a coautoria do silêncio. Em Brasília, o silêncio nunca é neutro; é sempre a moeda mais valiosa, aquela que se troca por favores futuros no balcão dos poderosos. O cidadão, que não frequenta esse balcão, continua pagando a conta e esperando, com paciência cada vez mais curta, o dia em que alguém no alto da pirâmide finalmente entenda que a foto não some, o print não apaga, e a memória do povo, quando desperta, cobra juros compostos.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.