Descobriram agora, com ar de novidade científica, que o Norte é sub-representado nas pesquisas eleitorais brasileiras. A revelação chega com a mesma solenidade de quem anuncia que a água molha. Sete estados, oito e meio milhões de eleitores, uma floresta do tamanho da Europa Ocidental, e o instituto de plantão amostra Manaus de raspão, Belém por obrigação e chama isso de retrato nacional. O resto é extrapolação, eufemismo técnico para chute com régua.

A pergunta que a acadêmica esqueceu de fazer, provavelmente porque ela não cabe no seminário, é a mais simples do ofício: quem paga a pesquisa? Instituto de opinião não é ONG franciscana, é empresa que vende produto, e o produto tem cliente. Cliente é campanha, é banco, é conglomerado de mídia, é ministério que precisa justificar programa social na véspera de eleição. Ora, se o comprador está no eixo Rio, São Paulo, Brasília e Minas, o vendedor entrega o que o comprador quer ler. Pesquisar Rondônia com o mesmo rigor com que se pesquisa a Zona Sul carioca custa caro, dá trabalho logístico e, pior de tudo, não muda o preço do contrato. Faltou incentivo, sobrou preguiça metodológica travestida de dificuldade regional.

Há aqui uma daquelas ironias que a história repete com a paciência de quem já viu tudo. Quando o império precisava do látex, mandava recensear seringueiro em barranco de igarapé com a mesma minúcia com que contava boi em fazenda paulista. Quando precisou do ouro, do manganês, da bauxita, apareceu geólogo, engenheiro e agente do fisco em cada barranco do Tapajós. Só some o interesse pelo Norte quando o assunto vira representação política. A régua muda conforme a mercadoria. Se o que está em jogo é riqueza a ser extraída, o Norte é territorial estratégico. Se o que está em jogo é voto a ser respeitado, o Norte vira margem de erro.

Note a beleza perversa do arranjo. O eleitor de Cruzeiro do Sul paga o mesmo tributo federal que o eleitor de Pinheiros, financia a mesma máquina pública, sustenta o mesmo Judiciário superior, banca a mesma propaganda oficial em rede nacional. Só que, na hora de figurar no espelho estatístico que orienta candidatura, coligação e verba de campanha, ele é arredondamento. Paga inteiro, aparece pela metade. É o mesmo princípio, aliás, do rateio dos royalties, da distribuição do fundo partidário e do desenho dos colégios eleitorais: contribui como Sul, decide como colônia. Chamam isso de federação por gentileza semântica.

O mais delicioso é ver o especialista lamentar o problema como se ele fosse uma falha técnica corrigível com mais planilha. Não é. É desenho. Ninguém investe seis dígitos para descobrir a opinião de quem já foi precificado como irrelevante pelo mercado político. A ausência de pesquisa no Norte não é buraco no mapa, é o mapa. Revela com precisão cirúrgica onde termina o interesse da classe que se autonomeou representante da nação e onde começa o território que essa mesma classe prefere administrar de longe, via emenda de relator e prefeito amestrado. Um dia alguém percebe que ignorância deliberada também é forma de governo, e das mais lucrativas para quem governa.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.