Outro ataque no Estreito de Ormuz, outro salto no barril, outro coro de analistas fingindo que não viram vindo. O estreito tem 39 quilômetros de largura no ponto mais estreito e por ele escoa cerca de vinte por cento de todo o petróleo consumido no planeta. Não é dado obscuro, está em qualquer manual de geopolítica energética há cinquenta anos. Mas todo trimestre o mercado age como se tivesse acabado de descobrir que existe uma pistola apontada para sua têmpora, e todo trimestre alguém em Brasília, Bruxelas ou Washington aparece na TV com cara de quem foi traído pela realidade.
Olha, o que se vê é o preço do barril subindo e os telejornais falando em "instabilidade geopolítica" como se fosse fenômeno meteorológico, algo que cai do céu sem causa nem responsável. O que não se vê, e é o que importa, é a década de política energética suicida do Ocidente que transformou uma vulnerabilidade administrável em bomba-relógio. Fecharam usinas nucleares que funcionavam, sabotaram exploração doméstica em nome de metas climáticas escritas por burocratas que nunca operaram uma bomba de sucção, subsidiaram painéis solares fabricados na China e, para completar, financiaram o inimigo comprando o gás que eles próprios proibiram de extrair no quintal.
Quer dizer, você entrega a chave da sua despensa a um vizinho armado, joga fora suas próprias reservas, e depois se indigna quando ele resolve cobrar aluguel na base do rifle. Isso não é geopolítica, é comédia. E o mais engraçado é a reação padrão: em vez de admitir o erro estrutural, o pessoal do planejamento central pede mais planejamento central. Mais subsídio, mais regulação, mais "transição", mais comitê. Cada intervenção fracassada vira justificativa para a próxima intervenção, e a espiral só termina quando o cidadão comum descobre no posto de gasolina que o custo do idealismo de gabinete tem cheiro forte e paga-se à vista.
Siga o dinheiro e a paisagem fica clara. Quem lucra com o barril a cento e poucos dólares? Os produtores que sobreviveram ao cerco regulatório, os fundos que apostaram contra a narrativa oficial, e principalmente os regimes autoritários que os moralistas ocidentais passaram vinte anos financiando enquanto perseguiam suas próprias petrolíferas. Quem paga? O caminhoneiro, a dona de casa, a padaria da esquina, a indústria que já operava no fio da navalha. A conta da virtude decretada por gente que anda de jatinho executivo sempre chega para quem pega ônibus.
E tem a parte monetária, que ninguém quer discutir. Quando o petróleo sobe, sobe tudo. Frete, alimento, energia elétrica, plástico, fertilizante. Isso vira "inflação de custo" no jargão dos comentaristas, expressão que existe para esconder a verdade fundamental: preços gerais sobem porque governos gastam mais do que arrecadam e bancos centrais imprimem para cobrir o buraco. O choque de Ormuz é o gatilho, não a causa. A causa é uma década de dinheiro fácil represado em ativos financeiros, e agora vazando para bens reais toda vez que aparece um pretexto. Ormuz é o pretexto de hoje. Amanhã será outro estreito, outra guerra, outro pretexto.
A lição, se alguém quiser aprender, é antiga e simples. País que abre mão da própria produção de energia em nome de virtude ideológica está abrindo mão da soberania. Moeda que se imprime sem lastro em produção real é confisco disfarçado. Rota comercial que depende da boa vontade de um regime teocrático é rota condenada. Nada disso é opinião, é aritmética. E a aritmética, diferente do burocrata do clima, não aceita apelação.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.