O núcleo da inflação no Japão fechou mais um mês colado à famosa meta de 2% do banco central, e o mercado financeiro reage com aquele alívio ritualístico de quem escapou por pouco de uma dor de cabeça maior. Repare no vocabulário: a autoridade monetária "atinge" a meta, "ancora" as expectativas, "conduz" a economia. Como se fosse mérito. Como se dois por cento ao ano de erosão programada do salário do trabalhador japonês fosse conquista técnica, e não confissão pública de que o dinheiro que ele guarda no colchão vale menos amanhã porque assim foi decidido em reunião fechada.
A história começa muito antes do comunicado desta semana. O Japão passou décadas com juros no zero, comprando títulos públicos, comprando ações via fundos, comprando basicamente qualquer papel que aparecesse no pregão, tudo em nome de "reanimar" uma economia que jamais precisou de reanimação: precisou de parar de ser sufocada. Cada rodada de expansão monetária foi vendida como remédio, cada remédio pediu uma dose maior no ano seguinte, e o balanço do banco central inchou até virar caricatura de si mesmo. Agora que a inflação apareceu, os mesmos técnicos que a produziram posam de médicos que curaram o paciente.
Quer dizer, olha só a mágica retórica. Se o índice ficasse em 0,5%, seria "risco deflacionário" e justificaria mais estímulo. Se pulasse para 4%, seria "choque temporário" e pediria paciência. Ficando em 2%, é "sucesso da política". Existe algum resultado, qualquer resultado, que faça o comitê admitir que errou? Não existe. E não existe porque o objetivo nunca foi servir ao poupador ou ao assalariado japonês, foi manter viva a máquina de financiamento barato do Tesouro, que precisa rolar uma dívida pública gigantesca sem que o custo dos juros exploda o orçamento.
Siga o dinheiro e o teatro desmorona. Quem ganha com juros artificialmente baixos por vinte anos? O governo endividado, os bancos que operam alavancados, as grandes corporações que emitem papel a custo simbólico e recompram as próprias ações. Quem perde? A aposentada que economizou a vida inteira e vê o iene comprar cada vez menos arroz, o jovem que não consegue formar poupança porque o rendimento real é negativo, o pequeno empresário que compete contra zumbis mantidos vivos por crédito subsidiado. A conta da festa monetária sempre chega, e chega justamente para quem não foi convidado.
Há ainda o detalhe conveniente do "núcleo" da inflação, que exclui alimentos e energia, ou seja, exatamente o que a dona de casa compra toda semana e o motorista abastece todo dia. É um índice desenhado para ser civilizado, comportado, apresentável em reunião de diretoria. O índice cheio, o que dói de verdade no bolso, costuma correr bem acima. Mas o comunicado oficial sempre destaca a versão maquiada, porque comunicação de banco central é publicidade institucional, não jornalismo econômico. E a imprensa financeira reproduz o release como se estivesse fazendo análise.
No fundo, o que se vende como estabilidade é rendição organizada. Aceitar que o dinheiro perca valor previsivelmente todo ano virou sinônimo de boa governança, e questionar essa premissa virou heresia de amador. Só que a matemática é implacável: a cada década, a moeda no bolso do cidadão comum vale cerca de vinte por cento menos, e alguém está do outro lado dessa transferência silenciosa. Não é a natureza, não é o mercado, não é o destino. É uma decisão política travestida de ciência, executada por gente que jamais será eleita e nunca responderá pelo estrago. Meta cumprida, dizem eles. Bolso vazio, responde o calendário.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.