A notícia que circula nos terminais é sintomática: os próprios entusiastas da inteligência artificial começam a perguntar, em voz baixa, se o boom não vai bater na parede. Quando o vendedor do óleo de cobra pergunta se o óleo funciona, alguma coisa mudou no ambiente. As avaliações de empresas que ainda queimam caixa como se dinheiro fosse recurso renovável passaram do razoável há dois anos, e agora chegam ao ponto em que analistas sérios comparam o momento atual à euforia das pontocom no fim dos anos 1990. A diferença é que, desta vez, a festa foi paga com dinheiro fabricado em escala industrial pelos bancos centrais durante uma década de juros negativos e outra de expansão pandêmica.

Siga o dinheiro e a história se conta sozinha. Quando o crédito é artificialmente barato por tempo suficiente, o cálculo econômico entra em curto-circuito. Projetos que jamais passariam num filtro de retorno racional recebem bilhões porque, no mundo do dinheiro fácil, qualquer aposta parece razoável desde que a próxima rodada de captação valide a anterior. É o velho esquema em roupa nova: alguém compra caro na expectativa de vender mais caro para o próximo otário, até que o próximo otário simplesmente não aparece. Os data centers gigantescos, os chips que custam mais que blocos de apartamento, as promessas de que a máquina vai substituir o médico, o advogado e o padeiro, tudo isso foi financiado por um oceano de liquidez que agora começa a secar.

Note bem o que não se vê. Enquanto trilhões correm para servidores e placas gráficas, o capital que iria para fábricas, pequenos negócios, pesquisa aplicada de retorno modesto e infraestrutura tradicional simplesmente evapora. Cada dólar aplicado numa startup que promete revolucionar o RH com um chatbot é um dólar que não financia a padaria da esquina, o galpão industrial no interior, o inventor solitário que teria criado algo útil. A distorção não está apenas no preço inflado das ações da moda; está no que deixou de existir porque o dinheiro foi para o lugar errado. Quando o bust chegar, e ele sempre chega, a conta será paga não pelos gestores de fundos que já embolsaram taxas gordas, mas pelo aposentado cujo plano de previdência comprou o topo.

Há ainda a peça mais deliciosa deste teatro: o governo entrando de sócio. Subsídios generosos para semicondutores, garantias implícitas para gigantes da tecnologia consideradas estratégicas, regulações desenhadas por lobistas das próprias empresas reguladas, tudo com o carimbo patriótico da segurança nacional contra a China. É o casamento clássico entre burocrata ambicioso e empresário protegido, aquele arranjo em que os lucros ficam privatizados e as perdas, quando vierem, serão socializadas com a naturalidade de quem já ensaiou a cena em 2008. Chama-se capitalismo apenas por convenção; na prática, é privilégio com relações públicas caras.

A pergunta honesta não é se a inteligência artificial tem valor real. Tem, e considerável, em nichos específicos onde substitui trabalho repetitivo com ganho mensurável. A pergunta é se o valor real justifica a avaliação delirante que o mercado atribuiu ao setor inteiro, incluindo as centenas de empresas que jamais entregarão um centavo de lucro. A resposta, para quem sabe ler balanço em vez de ler manchete, é evidente. E quando a evidência se torna consenso, o preço já caiu. Os que estão gritando agora, com ar de descoberta, são os mesmos que venderam a promessa ontem e querem sair antes do resto perceber.

O colapso tecnológico não vai interromper o boom por medo. Vai interromper porque toda expansão sustentada por crédito artificial termina do mesmo jeito, com a mesma cara de espanto dos mesmos gestores que juraram, de mão no coração, que desta vez era diferente. Nunca é diferente. A aritmética não se comove com narrativa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.