Gustavo e Renata compraram um apartamento com churrasqueira na varanda, pagaram por ela, pagam o condomínio, pagam o IPTU e, durante anos, assaram sua carne aos domingos sem que ninguém achasse o mundo em colapso. Bastou a chegada de dois novos moradores nos andares superiores, munidos daquela sensibilidade olfativa que só floresce em quem acabou de assinar escritura, para que o cheiro de gordura tostada se transformasse, da noite para o dia, em atentado à salubridade coletiva. O que era rotina virou reclamação formal. O que era varanda virou tribunal.

Repare na mecânica sempre idêntica: quem chega depois exige que o mundo se reorganize em torno de suas narinas recém desembarcadas. Não se pergunta por que compraram um apartamento acima de uma churrasqueira que existe há anos, com projeto aprovado, com escritura registrada, com uso pacífico e notório. Pergunta-se, ao contrário, se o casal debaixo ainda tem o direito de exercer aquilo que sempre exerceu. A lógica é invertida com uma naturalidade que só a covardia coletiva permite. O invasor da tranquilidade alheia se apresenta como vítima, e o proprietário original vira réu no processo que ele próprio nunca abriu.

Chega então a peça central da comédia, o condomínio, essa pequena república soviética de porteiro e síndico, sempre pronta a promover uma assembleia para votar aquilo que já estava contratado em cláusula. A convenção diz uma coisa, a escritura diz outra, o bom senso diz uma terceira, e mesmo assim reúnem se dez ou quinze moradores num salão de festas mal iluminado para deliberar se o vizinho pode ou não usar a churrasqueira pela qual pagou. É a democracia direta aplicada ao alheio, o velho truque de submeter a votação aquilo que nunca deveria ter saído do domínio do dono.

Siga o dinheiro, porque ele sempre entrega o jogo. Quem paga a churrasqueira é Gustavo. Quem paga o apartamento superior é o vizinho novo. Quem recebe o benefício da suposta regulação é exatamente aquele que chegou por último e que, se tivesse feito uma visita técnica antes de comprar, teria descoberto em cinco minutos que morar acima de uma varanda com grelha implica, surpresa das surpresas, sentir cheiro de carne aos sábados. A conta, no entanto, será cobrada de quem já estava lá, e ainda pretenderão chamar isso de convivência harmônica.

Existe uma diferença abissal entre resolver um conflito real, com prejuízo demonstrado, e transformar toda susceptibilidade individual em pauta coletiva. Se cada narina descontente puder acionar o condomínio, se cada ouvido irritado puder convocar assembleia, se cada olho enciumado puder redigir advertência, então não há mais propriedade, há apenas concessão precária revogável a qualquer momento pela maioria do corredor. E maioria de corredor, convém lembrar, é aquele arranjo em que três aposentados entediados e um advogado frustrado decidem o destino de dezenas de famílias que preferiam estar em qualquer lugar menos ali.

O caso parece pequeno, quase pitoresco, mas é o retrato fiel do país que se construiu. A liberdade não morre por decreto imperial, morre por regulamento de condomínio, por circular interna, por assembleia de quarta feira à noite. Morre no cheiro da picanha que ofende quem escolheu morar acima da grelha, morre na mansuetude do proprietário que aceita ser julgado por aquilo que sempre lhe pertenceu. Quem paga continua sendo quem paga. Quem recebe é quem aprendeu, cedo, que reclamar em nome do bem comum é o método mais eficiente já inventado para consumir gratuitamente o patrimônio dos outros.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.