A Barry Callebaut, gigante suíça que fornece chocolate para praticamente todas as marcas que você conhece no supermercado, veio a público dizer o óbvio que o mercado já grita há dois anos: o cacau continua caro, muito caro, e não há sinal de trégua no horizonte. A tonelada, que oscilava confortavelmente entre dois e três mil dólares por décadas, cravou picos acima de doze mil em 2024 e ainda flutua em patamares que faziam qualquer trader rir de nervoso. A empresa fala em persistência dos preços elevados como quem descreve fenômeno meteorológico, sem coragem de nomear o mecanismo que quebrou a espinha da oferta mundial.
A narrativa oficial é conveniente e você já deve tê-la ouvido: mudança climática, chuvas irregulares, doença do cacaueiro na Costa do Marfim e em Gana. Verdade parcial que serve como cortina de fumaça. O que ninguém conta em manchete é que esses dois países, responsáveis por cerca de sessenta por cento do cacau mundial, operam sob regime de monopólio estatal de compra há gerações. O produtor rural africano recebe uma fração ridícula do preço internacional, fixada por burocracia governamental que arbitra o valor da colheita como se estivéssemos em economia planificada de manual. Resultado previsível: décadas de subinvestimento, lavouras envelhecidas, agricultor sem capital para replantar, praga se alastrando em terra exausta.
Siga o dinheiro e a história fica cristalina. Enquanto o cacaueiro morre no campo porque o dono não pode nem escolher para quem vende, os órgãos estatais de comercialização, o Cocobod ganês e o Conseil du Café-Cacao marfinense, movimentam bilhões e sustentam a burocracia local, os intermediários privilegiados e os traders internacionais que negociam contratos futuros em Londres e Nova York. Quando o preço explode, o produtor no interior de Daloa continua recebendo o mesmo preço tabelado meses antes, porque o governo fixou. Quem lucrou com o rali foi quem estava do lado certo do balcão financeiro, não quem enfrentou sol e enxada.
Agora observe o efeito cascata que ninguém explica na embalagem do bombom. A indústria de transformação, essa mesma Barry Callebaut e concorrentes, absorveu parte do choque, repassou parte, encolheu barras, trocou manteiga de cacau por gordura vegetal, reformulou receitas centenárias para caber no novo custo. O consumidor final paga mais por menos e ainda escuta que é tendência premium. Quer dizer, o chocolate ao leite da sua infância virou artigo semiluxo não porque o gosto do mercado mudou, mas porque uma cadeia produtiva foi estrangulada por decisão política tomada em capital distante e ninguém do lado do consumidor votou nisso.
Existe uma lição antiga aqui, dessas que a economia moderna finge esquecer porque desmontar a fantasia dói. Quando você retira do produtor o direito de negociar livremente o fruto do próprio trabalho, você não protege ninguém, você planta miséria de longo prazo disfarçada de política social. O aumento do cacau não é acidente climático, é fatura vencida de meio século de intervencionismo agrícola travestido de justiça distributiva. O planeta não ficou mais quente do que o suficiente para explicar quadruplicação de preços; o que aconteceu foi que o sistema, mantido no respirador por décadas, finalmente entrou em colapso visível.
E a moral da história é aquela que se repete em cada mercado que o Estado resolve organizar em nome do bem comum: a escassez sempre chega, com atraso mas com juros. O consumidor brasileiro, que já pagou o preço da tabela de leite, do congelamento da carne, do controle da gasolina, agora paga o preço do cacau africano administrado por burocratas de Abidjan. A liberdade econômica não é luxo ideológico, é o único mecanismo que impede que o café da manhã da sua casa vire item de coleção.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.