A manchete vira de cabeça para baixo assim que se olha para o placar. Nos últimos quinze anos, a economia americana cresceu praticamente o dobro da europeia, o PIB per capita nos Estados Unidos abriu uma vantagem que já beira o obsceno, e as vinte maiores empresas de tecnologia do planeta continuam concentradas do outro lado do Atlântico. A União Europeia responde a isso com o quê? Com um novo pacote regulatório sobre inteligência artificial, um imposto digital, uma diretiva verde e uma comissão de especialistas para estudar por que os empreendedores estão fugindo. A resposta está no próprio remédio.

Quer dizer, o continente que inventou a Revolução Industrial hoje pede autorização em triplicata para acender uma vela. Um empresário que tenta abrir uma fábrica na Alemanha esbarra em processos ambientais que se arrastam por anos, custos trabalhistas que devoram margens antes mesmo do primeiro parafuso ser vendido, e um preço de energia que dobra o do concorrente texano porque alguém em Berlim decidiu, no meio de uma crise energética, desligar as usinas nucleares. Isso não é política pública, é sabotagem com carimbo oficial. E o pior é que a conta chega sempre para o mesmo sujeito: aquele que produz, aquele que emprega, aquele que paga o imposto que sustenta o burocrata que inventou a regra que quebrou a empresa.

Siga o dinheiro e o retrato fica mais nítido. Bruxelas gasta bilhões em subsídios agrícolas para proteger produtores franceses que já eram protegidos no século dezenove, financia carros elétricos que ninguém compra sem incentivo estatal, e distribui fundos de recuperação com a mão pesada de quem confunde generosidade com o cartão de crédito alheio. Cada euro redistribuído saiu do bolso de alguém que teria feito coisa melhor com ele, mas ninguém vê o negócio que não abriu, a inovação que não aconteceu, o emprego que não foi criado. Vê-se apenas a ponte inaugurada, o subsídio anunciado em coletiva, a foto do ministro cortando a fita. O resto fica invisível, como sempre.

Os americanos não são santos, longe disso. Têm dívida pública indecente, um banco central que trata a impressora como brinquedo e uma classe política que faria corar qualquer taberneiro. Mas ainda há, no fundo, um resíduo cultural que respeita quem constrói. Um garoto de vinte anos em Palo Alto abre uma empresa num sábado à tarde e no domingo já tem capital de risco batendo à porta. Um garoto de vinte anos em Milão precisa de contador, advogado, notário, licença municipal, licença regional, licença nacional e, para não perder o costume, uma bênção comunitária. Depois se pergunta por que os cérebros europeus emigram. Ora, porque em algum lugar do mundo alguém ainda os deixa trabalhar.

Há quem diga que a Europa compensa a estagnação com qualidade de vida, saúde pública universal, redes de proteção social. É verdade em parte, mas essas redes foram tecidas sobre uma riqueza acumulada num tempo em que o continente ainda produzia. Consumir o capital dos avós e chamar isso de modelo civilizatório é um truque que funciona por uma geração, talvez duas. Depois a conta chega, e ela vem em forma de aposentadoria congelada, hospital sucateado e jovem que não vê futuro. A França está descobrindo isso na marra, a Alemanha começa a suspeitar, e a Itália já se acostumou.

Então a pergunta correta não é o que a União Europeia tem que os Estados Unidos não têm. É o que a União Europeia tem em excesso e que os Estados Unidos ainda conseguem manter em dose menor. Regulação, tributação, planejamento central, tutela burocrática, a certeza doentia de que um comitê em Bruxelas sabe melhor que milhões de indivíduos o que produzir, como produzir e para quem produzir. Enquanto essa certeza durar, a resposta ao enigma continuará sendo a mesma: a Europa tem tudo aquilo que impede uma economia de crescer, e ainda cobra ingresso para o espetáculo da própria decadência.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.