A cúpula marcada para setembro entre o presidente americano e o líder chinês está sendo vendida como acontecimento diplomático da década, e a imprensa financeira global entra em transe reverente diante da possibilidade de que dois homens sentados numa sala definam tarifas, cotas, exportações de terras raras e o destino de trilhões em comércio. Repare no absurdo antes que ele vire paisagem. Bilhões de pessoas produzindo, trocando, inventando e poupando ficam suspensas à espera de que dois políticos, cercados de assessores que nunca fabricaram um parafuso na vida, decretem quem pode vender o quê para quem, e a que preço. Isso não é diplomacia, é planejamento central com uniforme de gala.

O roteiro já é conhecido, e é sempre o mesmo desde que o mundo aprendeu a chamar de estadista o sujeito que gasta o dinheiro dos outros. Trump chega ameaçando tarifas de cinquenta, sessenta, setenta por cento, Xi responde restringindo exportação de galio, germânio, terras raras, e no fim os dois assinam uma trégua que a imprensa chamará de vitória histórica e que o consumidor americano pagará no preço do iPhone, e o consumidor chinês pagará no preço da soja. A conta, como sempre, é dividida entre quem não foi consultado. O agricultor de Iowa não votou nas tarifas de Pequim, o operário de Shenzhen não votou nas sanções de Washington, mas ambos financiam o teatro com o suor de segunda a sexta.

Siga o dinheiro e a fantasia se desfaz rápido. Cada tarifa protege um setor específico que fez lobby forte, e destrói centenas de setores que não têm departamento de relações governamentais em Washington ou em Pequim. O aço americano ganha proteção, e a indústria automobilística americana paga mais caro pelo aço. O painel solar chinês ganha subsídio, e o contribuinte chinês paga a conta via inflação disfarçada de crescimento. Toda vez que um chefe de Estado anuncia acordo comercial, entenda que alguém está sendo pilhado com selo oficial, e o pilhado quase nunca aparece na foto do aperto de mão.

O que ninguém no noticiário quer admitir é que essa cúpula só existe porque os dois governos passaram décadas inflando suas moedas, subsidiando campeões nacionais, protegendo oligopolios domésticos e chamando isso de política industrial. Se o dólar fosse âncora sólida e o yuan fosse moeda de mercado, se nenhum dos dois lados tivesse banco central imprimindo dinheiro para financiar aventuras fiscais, a conversa em setembro seria dispensável. Comércio livre não precisa de cúpula, precisa de porto aberto e de governo que fique em casa. O que existe hoje é o oposto: dois impérios de papel-moeda tentando negociar quem financia por mais tempo a fantasia própria enquanto acusa o outro de trapaça.

A ironia mais deliciosa é que os mesmos analistas que celebram a reunião como sinal de racionalidade adulta são os que passaram anos jurando que globalização era irreversível, que interdependência garantia paz, que cadeias produtivas integradas tornavam guerra impensável. Agora descobrem que quando o Estado controla o câmbio, o crédito, a energia e a fronteira, a interdependência vira arma, e a paz depende do humor de dois senhores que amanhã podem acordar irritados com uma manchete. A lição estava disponível há séculos para quem quisesse ler: quanto mais poder o governo acumula sobre a economia, mais frágil fica a civilização, porque um erro de cálculo em Washington ou em Pequim vira crise de abastecimento no seu supermercado.

Espere de setembro o de sempre, um comunicado conjunto vago o suficiente para cada lado declarar vitória em casa, algumas concessões cosméticas embrulhadas em linguagem grandiloquente, e a promessa de novas rodadas que manterão exércitos de consultores, diplomatas e jornalistas empregados por mais uma década. O mercado subirá dois dias, cairá três, e ninguém perguntará a pergunta óbvia: por que aceitamos que o preço do que compramos, a moeda em que poupamos e o emprego em que trabalhamos dependam de duas assinaturas num papel? A resposta é que fomos ensinados a chamar isso de ordem mundial, quando o nome correto é servidão voluntária com aplauso da imprensa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.