Quem acompanha o noticiário alemão nesta semana vê os operadores de mercado com o olho grudado em Berlim, tentando adivinhar até quando a coalizão de Friedrich Merz sobrevive antes de rachar de vez. O cenário é conhecido de quem já viu esse filme rodar em outras capitais europeias: uma economia que não cresce, um eleitorado que migra para os extremos, um governo que promete "estabilidade" enquanto negocia cada centavo do orçamento como se fosse refém do próprio parlamento. Quer dizer, a locomotiva da Europa virou vagão, e ninguém no comando quer admitir que o problema não é conjuntural, é estrutural.

Vale lembrar de onde vem esse buraco. A Alemanha decidiu, num acesso de moralismo energético, desligar suas usinas nucleares no momento exato em que dependia de gás russo barato para manter a indústria funcionando. Quando o gás sumiu, sobrou o discurso da transição verde e faltou eletricidade para as fábricas. O resultado está aí: a BASF migrando produção para os Estados Unidos, a Volkswagen fechando plantas pela primeira vez em 87 anos de história, e o governo federal ainda debatendo se aumenta subsídio para painel solar. Olha, existe algo de trágico em ver uma nação de engenheiros ser governada por poetas do apocalipse climático.

E aqui entra o ponto que os analistas de banco não vão dizer no relatório oficial. O afrouxamento do freio da dívida, aquela regra constitucional que impedia o governo de gastar mais do que arrecadava, foi vendido como pragmatismo diante da guerra na Ucrânia. Na prática, destravou centenas de bilhões de euros para infraestrutura e defesa que serão alocados por quem? Pelos mesmos burocratas que decidiram fechar reatores nucleares em funcionamento. Siga o dinheiro e você encontrará consultorias, empreiteiras politicamente conectadas e a habitual coreografia de contratos emergenciais dispensando licitação. O contribuinte alemão vai pagar duas vezes: uma na energia cara, outra no imposto que financia a "solução" para a energia cara.

A ascensão da AfD nas pesquisas, agora batendo de igual para igual com a CDU de Merz, não é fenômeno de extremismo espontâneo, é sintoma de um sistema político que criminalizou o dissenso durante uma década e agora se espanta ao ver o dissenso voltar pela porta dos fundos. Quando você chama de nazista todo mundo que discorda da política de imigração, da política energética ou da política monetária do Banco Central Europeu, o eleitor que discorda dessas coisas simplesmente para de escutar você. E vai votar em quem grita mais alto. Não é complicado; é aritmética social básica que qualquer taxista de Munique explicaria melhor do que o editorial do Die Zeit.

O que os investidores realmente deveriam observar não é a próxima pesquisa de intenção de voto, mas a velocidade com que o modelo alemão está sendo desmontado sem que ninguém tenha o poder ou a coragem de reconstruí-lo. O euro forte que sustentava as exportações depende de uma Alemanha produtiva; a Alemanha produtiva dependia de energia barata; a energia barata dependia de decisões racionais tomadas por adultos. Retire qualquer uma dessas peças e o castelo desaba em câmera lenta, exatamente como está desabando agora. Berlim descobriu, com atraso considerável, que virtude sinalizada em conferência climática não paga folha de pagamento em fábrica de automóvel.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.