Acende a luz da cozinha às onze da noite e lá está ela, imóvel na parede branca, os olhinhos pretos fixos na lâmpada. A primeira reação da dona de casa costuma ser um gritinho, a segunda é pegar a vassoura, a terceira, se houver algum bom senso, é agradecer. Porque aquela lagartixa parada não veio passear, não veio assombrar, não veio pagar visita. Ela veio trabalhar. E trabalha melhor, mais barato e com menos burocracia do que qualquer secretaria de saúde municipal já sonhou operar.
A presença do bichinho na casa é sintoma, não causa. Onde há lagartixa, há mosquito, mariposa, barata, formiga, aranha pequena, toda a fauna miúda que se reproduz nos cantos úmidos e nas frestas mal vedadas. O réptil aparece porque o cardápio está posto, e o cardápio está posto porque o imóvel tem brechas, o quintal tem água parada, a caixa d’água tem tampa frouxa, a vizinhança tem terreno baldio que a prefeitura promete limpar desde a gestão anterior. A lagartixa é a auditoria noturna que ninguém contratou e que insiste em prestar serviço mesmo assim.
Aqui está a piada amarga. O cidadão paga IPTU, paga taxa de limpeza, paga contribuição de iluminação, paga imposto embutido em cada lâmpada que compra, em cada telha que substitui, em cada litro de veneno que pulveriza. Do outro lado do balcão, o poder público entrega carro fumacê ineficaz, campanha publicitária com jingle infantil e agente de endemias que passa uma vez por semestre para deixar folheto na porta. Enquanto isso, o pequeno réptil, que não recebe salário, não tem plano de carreira, não fez concurso e não pertence a sindicato, come vinte mosquitos por noite e some ao amanhecer sem cobrar hora extra.
Há uma lição antiga nessa cena banal. Toda vez que a natureza resolve sozinha aquilo que o Estado promete resolver, o resultado é silencioso, gratuito e eficiente. Toda vez que o Estado se mete a resolver aquilo que a natureza faria de graça, o resultado é caro, ruidoso e vem com relatório impresso em papel timbrado. O gato caçava o rato na Roma antiga sem precisar de secretaria adjunta de vigilância zoossanitária. A galinha ciscava o carrapato no quintal da fazenda sem parecer técnico do ministério. A lagartixa, herdeira dessa mesma economia doméstica ancestral, continua fazendo o serviço, e o serviço continua funcionando, apesar de nunca ter passado por licitação.
Então quando ela aparecer, respire fundo. Aquilo não é praga, é folha de balanço. Ela está ali dizendo, com o silêncio dos que não precisam de microfone, que sua casa tem umidade demais, iluminação externa demais atraindo insetos, alguma tela rasgada, algum ralo sem vedação. Corrija o que for seu, que é o que está ao seu alcance, e deixe o bichinho seguir a rotina. É o único fiscal que aparece sem aviso prévio, cumpre a função exata para a qual foi criado pela biologia e não deixa multa em cima da mesa. Se dependesse da prefeitura, você já teria dengue, chikungunya e boleto atrasado.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.