O ex-ocupante da Casa Branca resolveu, das páginas do New York Times, avisar ao mundo que a inteligência artificial pode ficar "perigosa" se não for "adequadamente gerenciada", e cobrou dos democratas uma agenda de governança para o tema. Repare no verbo. Gerenciar. Como se algo tão vasto, tão disperso, tão distribuído entre milhões de desenvolvedores, empresas, universidades e garagens do mundo inteiro coubesse na escrivaninha de um secretário de gabinete em Washington. É a velha pretensão de sempre, agora com roupagem tecnológica. O sujeito não sabe programar uma cafeteira, mas quer desenhar o marco regulatório de redes neurais que ele próprio confessa não entender.
Preste atenção no timing, que é onde a mágica se revela. O alerta vem exatamente quando o Vale do Silício está fora do controle do aparelho democrata tradicional, quando startups desregradas ameaçam os gigantes já domesticados, quando modelos abertos permitem que qualquer garoto de dezesseis anos rode em casa o que antes exigia um laboratório de trezentos milhões de dólares. A "preocupação" bate à porta no minuto em que o poder escapa das mãos de quem o administrava. Coincidência? Só para quem nunca viu o filme.
Siga o dinheiro e a coisa fica cristalina. Toda regulação de tecnologia complexa produz o mesmo resultado invariável: os pequenos morrem afogados em compliance, os grandes contratam mil advogados e viram sócios do regulador, e o consumidor paga a conta em produtos piores e mais caros. Não existe uma única exceção histórica. O que se vende como "proteção contra os perigos da IA" é, na prática, a construção de um cartel oligopolista blindado pelo Estado, no qual as três ou quatro empresas certas, aquelas que financiaram as campanhas certas, ficam com o mercado inteiro. É captura regulatória com script de Hollywood.
Há ainda a parte que ninguém quer discutir. O mesmo grupo político que passou uma década pressionando plataformas para censurar "desinformação", que normalizou parcerias entre agências federais e redes sociais para moderar discurso, agora quer estender esse arranjo para os modelos generativos. Traduzindo do burocratês: querem decidir o que a IA pode e não pode dizer, quem pode treinar, com quais dados, sob quais "valores". Chamam isso de segurança. O nome antigo era outro, e envolvia um funcionário lendo sua correspondência antes de você.
O detalhe delicioso é que o alarme sobre "perigos" nunca inclui o perigo óbvio, que é justamente concentrar o poder de decidir esses parâmetros em um punhado de burocratas não eleitos, orientados por lobbies das mesmas big techs que fingem estar sendo reguladas. O risco de uma IA autônoma qualquer causar dano existe, é verdade, mas é infinitamente menor do que o risco garantido, documentado, repetido em toda a história moderna, de um Estado que se apodera de uma nova tecnologia sob pretexto humanitário e a transforma em ferramenta de controle. Uma ameaça é hipotética, a outra é certa.
No fim, a mensagem é a de sempre, apenas com um verniz novo. Confiem em nós, temos os especialistas certos, os comitês certos, as intenções certas, deixem-nos cuidar disso por vocês porque vocês, coitados, não entendem. É o discurso que precedeu todas as grandes tragédias regulatórias do último século, e vai preceder a próxima, se deixarem. A liberdade tecnológica se defende exatamente como a liberdade de imprensa: desconfiando de todo sujeito de terno que aparece na televisão dizendo que precisa "organizar" aquilo em nome do bem comum.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.