O programa vai ao ar sábado, dezenove e trinta, com uma dermatologista respeitada perguntando quais são os desafios da saúde no Brasil. A pergunta é elegante, o cenário é limpo, o tom é civilizado. Só falta alguém ter a coragem de responder o óbvio: o desafio da saúde brasileira não é técnico, não é epidemiológico, não é falta de médico nem excesso de doente. O desafio é aritmético. E aritmética, quando exposta à luz, envergonha quem gastou décadas fingindo que o problema era complexo.

O cidadão paga imposto sobre o salário para financiar o sistema público. Paga imposto sobre cada produto que consome, inclusive o remédio, taxado como se fosse joia. Paga, ainda, o plano privado porque descobriu, geralmente numa madrugada de febre alta com criança no colo, que o sistema pelo qual já pagou compulsoriamente não estará lá quando precisar. Três vezes pelo mesmo serviço, e no fim da fila ainda recebe uma senha e um sorriso condescendente de quem administra a miséria alheia com salário garantido. Isso não é sistema de saúde, é engenharia tributária disfarçada de compaixão.

Convém observar para onde o dinheiro efetivamente escorre, porque ele não evapora. Vai para uma estrutura administrativa gigantesca que emprega mais gente de gravata do que de jaleco, para fornecedores contratados sem concorrência real, para obras hospitalares que nascem inauguradas e morrem inacabadas, para partidos que loteiam secretarias como quem distribui cadeiras num casamento. A verba do posto de saúde perdido no interior passa por tantas mãos até chegar lá que, quando desembarca, sobra o suficiente para comprar dipirona vencida. O médico que atende dezesseis horas seguidas por um salário indecente é a última vítima de uma cadeia alimentar cujos predadores nunca pegam bisturi.

Diante disso, a televisão promove um debate solene sobre desafios, como se estivéssemos enfrentando um enigma inédito. Não estamos. Quando um monopólio estatal controla a oferta de um serviço, encarece a alternativa privada por regulação, taxa o insumo importado, engessa a formação profissional por reserva de mercado e ainda cobra do usuário a conta do próprio fracasso, o resultado não é surpresa, é silogismo. Escassez planejada produz fila, fila produz clientelismo, clientelismo produz voto, voto produz orçamento, orçamento produz mais escassez. O ciclo é tão perfeito que só um ingênuo o chama de disfunção. É o funcionamento, não o defeito.

Existe uma velha manha retórica que consiste em transformar problema orçamentário em dilema filosófico. Se a saúde é direito de todos, dizem, então cabe ao Estado provê-la. Belo salto lógico, que ignora um detalhe: direito a algo não invoca esse algo por decreto. Você pode ter direito ao pão, mas alguém precisa assar o pão, e se o padeiro for expropriado toda semana, o forno esfria. A retórica dos direitos serve para calar a pergunta contábil, que é a única pergunta séria que se pode fazer num país onde a carga tributária come quatro meses do ano do contribuinte médio. Onde está o dinheiro que já foi pago?

Enquanto o programa de sábado discute desafios em tom professoral, o brasileiro que financia a farra continua pagando, esperando e adoecendo. O verdadeiro debate não cabe em meia hora de televisão porque não interessa a quem vive da fila, prospera na escassez e enriquece na intermediação. Interessa apenas a quem paga a conta e nunca é convidado ao estúdio. A pergunta permanece, teimosa como cobrança de imposto: quem paga e quem recebe? Responda isso honestamente e o suposto enigma da saúde brasileira dissolve em vinte segundos.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.